Copa 2026: Geopolítica Frustrada e Futebol Brasileiro em Crise
Copa 2026: Geopolítica Frustrada e Crise no Futebol Brasileiro

Sob uma perspectiva geopolítica, a Copa do Mundo de 2026 se revela um projeto frustrado. A Fifa optou por expandir o número de participantes de 32 para 48 nações. Estados Unidos, México e Canadá, ao decidirem sediar o torneio, almejavam projetar a imagem de uma América do Norte unida, próspera e, em certa medida, aberta ao mundo. No entanto, no percurso, depararam-se com a rígida política migratória de Donald Trump.

As Tensões Políticas e a Discriminação

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, ainda tentou agradar Trump com um prêmio da paz que ele mesmo criou para compensar a frustração pela perda do Prêmio Nobel. Além da política migratória severa, Trump decidiu entrar em conflito com o Irã, um dos países participantes da Copa. O resultado foi que os ares da guerra foram transferidos para o campo esportivo. A seleção do Irã disputa jogos nos Estados Unidos, mas seus jogadores são obrigados a dormir no México. Dois deles nem sequer conseguiram entrar nos EUA, assim como alguns membros da delegação. Gianni Infantino visitou o time do Irã no vestiário, fez uma preleção edificante e ouviu os lamentos de um país que, neste aspecto esportivo, está sendo discriminado.

Os problemas não pararam por aí. Na verdade, continuaram com a decisão americana de barrar um competente árbitro de futebol. Ele foi recebido como herói nacional ao retornar ao seu país. Isso apesar de Omar Artan vir de uma nação pobre, com pouca tradição esportiva. Em suas divergências com a deputada Ilhan Omar, que nasceu na Somália, é muçulmana e democrata, Trump já se referiu a esse país africano como um lixo.

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Outro país africano, Senegal, sofreu com a alfândega americana. Os jogadores foram severamente inspecionados, como se houvesse algum problema especial de segurança com os senegaleses. Eram africanos, só isso.

Diante de tantas atitudes de discriminação em uma Copa que se pretende inclusiva, um jornal francês publicou uma charge de Gianni Infantino como se fosse um fantoche de Trump.

A Postura da Fifa: Dócil com EUA, Imperial com Brasil

Quem não se lembra do rigor da Fifa para que o Brasil sediasse a Copa do Mundo? Cento e quarenta e uma exigências, além de um Caderno de Encargos. Além de isenções de impostos, a entidade exigia vistos rápidos e autorização de trabalho. O processo revelou uma Fifa dócil diante dos Estados Unidos e com comportamento imperial diante do Brasil.

Em 2026, a Copa é, para nós brasileiros, um processo mais tranquilo. Não foi assim no tempo do governo militar, na Copa de 1970. Os generais, ávidos por popularidade, foram aconselhados a se envolver com o futebol. Garrastazu Médici fazia embaixadinhas diante de fotógrafos. Muitos quadros de esquerda pensaram em torcer contra o Brasil para que a ditadura militar não capitalizasse a vitória. Na hora do jogo, porém, os cálculos políticos desabavam e todos gritavam “vamos, Brasil”.

Um dos grandes nomes daquele período foi o técnico e jornalista João Saldanha. Os militares queriam que ele convocasse Dadá Maravilha, jogador do Atlético Mineiro, para a seleção. João recusou e disse que o presidente escalava seu ministério, mas ele é quem escolhia os jogadores da seleção.

O Futebol Brasileiro em Decadência

Nos dias de hoje, o conflito está bem atenuado. Os candidatos usam a camisa amarela da seleção porque todos torcem por ela. O único argumento de Flávio Bolsonaro é que Lula usa a camisa durante a Copa do Mundo, e ele usa o ano inteiro. Mas de vez em quando levanta a bandeira dos Estados Unidos, diriam os adversários. O peso dos debates sobre a Copa do Mundo não é mais o mesmo porque nosso futebol decaiu, tem escassas chances de vitória final, daí a relativa frieza. As causas da decadência ainda não foram profundamente discutidas. Ainda temos grandes nomes no futebol europeu, alguns jovens promissores, mas aquele Brasil do passado não existe mais.

No momento, esboça-se uma crítica à CBF, mas é um problema de costumes. Segundo algumas notícias, o presidente da entidade teria levado a esposa e a amante para a Copa, hospedando uma no México e a outra nos Estados Unidos. Nesse enredo jornalístico, seu destino é parecido com o da delegação iraniana. Ele joga nos EUA e dorme no México, ou vice-versa, quem saberá de seus segredos.

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A verdade é que, assim como a Copa não tem o impacto geopolítico imaginado há algum tempo, o futebol brasileiro perdeu um pouco de sua magia e da capacidade de ser uma dimensão do nosso soft power.

Não maravilhamos mais o mundo com a habilidade dos pés, mas sempre é tempo para achar talento em outras partes do corpo – o cérebro, por exemplo. Na verdade, se a performance do Brasil for desapontadora, como foi sugerido na estreia, certamente se abre o caminho para uma grande reformulação no futebol brasileiro, a começar pelo campeonato nacional, os processos de formação de base, uma maior introdução da tecnologia, enfim, elementos que estão presentes em seleções que nos desafiam e que, há apenas alguns anos, eram facilmente batidas pelo Brasil.

Toda essa energia que vemos, nascida do impulso comercial de ganhar dinheiro com a paixão do brasileiro por torcer pelo nosso time na Copa, precisa apoiar a renovação. A possibilidade de a fonte secar é muito grande.