Disputa societária na Gafisa se intensifica
Uma nova disputa societária está se desenhando na Gafisa, incorporadora que enfrenta dificuldades financeiras há tempos. Um grupo de acionistas orquestrado pela gestora de recursos ativista L4 Capital requereu e conseguiu agendar uma assembleia geral extraordinária (AGE) para ampliar o conselho de administração e trocar todo o conselho fiscal. A assembleia foi marcada para 1º de julho.
L4 quer evitar influência de credores
A L4 quer garantir que a AGE ocorra sem dar chances para a entrada de credores na discussão. A Gafisa tem em aberto um processo de aumento de capital que prevê a conversão de dívidas em ações. O processo, iniciado em abril, se estenderá até o fim de junho, véspera da assembleia, e pode movimentar entre R$ 110 milhões e R$ 250 milhões — valor muito superior ao seu valor de mercado, de apenas R$ 25 milhões.
Na fase de exercício de direito de preferência, os acionistas subscreveram apenas R$ 10 milhões. O grosso da capitalização se concentrará na conversão de dívidas, abrindo possibilidade para diversos credores ganharem participação relevante na empresa — desde fornecedores e empreiteiros até detentores de debêntures —, o que mudaria completamente o quadro acionário.
Na lista de credores aparece o empresário Nelson Tanure, que já é ligado à Gafisa por meio de fundos geridos pela Planner, que respondem por 19% da companhia, além de possuir debêntures da empresa. Há uma preocupação da L4 de que Tanure ganhe participação no negócio e vote contra os pleitos dos acionistas que solicitaram a convocação da AGE. A L4 reuniu um grupo que detém 8% da empresa ao todo.
Gestora pede data de corte
Diante desse receio, a L4 pediu à Gafisa que fixe 5 de junho como data de corte para a AGE. Assim, apenas a base acionária existente até essa data poderia votar na assembleia. Detentores de ações emitidas depois ficariam de fora.
“Quem quis participar do aumento de capital aceitou a tese da empresa. Mas os credores não têm direito de discutir governança nesse momento da assembleia”, afirmou à Coluna o sócio da L4, Hugo Queiroz. Segundo ele, a data de corte não afetaria quem já tem ações ou que venha a comprar os papéis em bolsa, mas barra quem pretende ganhar corpo via conversão de dívidas.
A Gafisa, porém, negou o pedido da L4, sob alegação de que a imposição de uma data de corte representaria uma violação da lei. A incorporadora cita que a lei 6.404/76 impede a escolha de data base para a definição de acionistas habilitados a participar de uma assembleia. Procurada, a companhia não se manifestou, pois está em período de silêncio no processo de aumento de capital.
No entendimento da empresa, a data de referência para verificação da posição acionária deve ser a mais recente possível, portanto, a base vigente na manhã da data da assembleia. “Essa prática visa garantir que as pessoas que comparecerão à assembleia sejam, efetivamente, acionistas da companhia no momento da deliberação”, explicou a direção, em troca de e-mails com a L4.
A resposta desagradou a L4, que sustenta que o argumento não procede. “Já participei de várias assembleias em que tinha data de corte para acionistas participarem de discussões de governança”, rebateu Queiroz. Agora, a L4 pretende buscar uma liminar judicial para assegurar seu pleito. “Mais tardar, até semana que vem devemos entrar com essa petição”, antecipou à reportagem.
Instituição busca mudar conselhos
Na assembleia, o grupo da L4 quer emplacar dois representantes no conselho de administração, que passaria de três para cinco membros. Também pede a destituição e eleição de um novo conselho fiscal.
A justificativa é que a empresa não vem apresentando resultados: diminuiu os lançamentos e a receita, tem margens estagnadas e prejuízos recorrentes, além de disparada na dívida. Nos últimos 12 meses, as ações caíram mais de 90%, negociadas hoje na faixa de R$ 1. Para mudar esse quadro, é preciso mudar a governança, dizem.
A Gafisa mudou o foco para empreendimentos de alto padrão e luxo, abandonando os lançamentos para classe média. Por sua vez, a L4 pretende rediscutir a rota. A ideia é vender terrenos considerados sobressalentes no Rio e em São Paulo, e buscar projetos nas Regiões Centro-Oeste e Sul.
“Hoje a Gafisa está competindo com JHSF, Lindenberg, Even e outras empresas com mais nome no alto padrão. Vamos usar a marca nacional da Gafisa em outros lugares onde há muitas oportunidades para o alto padrão, mas com terrenos mais baratos”, diz Queiroz.
A direção da Gafisa tem falado a investidores e acionistas que 2026 é um ano de transição, com a entrega de projetos antigos e redução da dívida, enquanto a retomada do crescimento ocorrerá a partir de 2027. Por isso ainda não houve melhora dos resultados.
Dívida chega a R$ 1,6 bilhão
O maior desafio está na dívida total, de R$ 1,6 bilhão, enquanto os recursos em caixa somam apenas R$ 306 milhões, conforme o balanço mais recente. O que complica são os vencimentos de curto prazo. Da dívida total, R$ 672 milhões (41%) vencem até dezembro deste ano e R$ 697 milhões (43%) até o fim do ano que vem.
Queiroz, da L4, diz que considera pedir aos credores uma paralisação temporária das cobranças (stand still) se conseguir influenciar o conselho de administração. “Vamos criar comitês específicos para mostrar que a gestão mudou e depois negociar um stand still”, antecipa.
Por sua vez, a direção da Gafisa acredita que a dívida será equacionada sem a necessidade de renegociações. Além do aumento de capital, a empresa espera gerar caixa com a finalização de obras e o repasse de clientes para o financiamento bancário. Com isso, a direção prevê um corte de 48% na dívida total até o fim do ano.
“A nossa alavancagem está muito ligada aos projetos. Então, na medida em que a gente vai fazendo as entregas e os repasses, a gente deve ter uma redução muito boa do endividamento”, afirmou o presidente da Gafisa, Luis Ortiz, durante a última teleconferência com analistas. Até o fim do ano, serão cinco obras entregues, com apartamentos avaliados em R$ 1,7 bilhão, sendo que aproximadamente 90% já estão vendidos. A empresa também passou por atraso de obras e distratos.
Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 12/06/2026, às 15:52.



