A cidade de Braunau am Inn, na Áustria, converteu a casa onde Adolf Hitler nasceu em uma delegacia de polícia, que começou a funcionar nesta quarta-feira (22). A iniciativa do governo local visa evitar que o imóvel se torne um ponto de encontro e peregrinação para neonazistas.
Desapropriação e reforma
Após anos de debate sobre a grande casa geminada tradicional, que era de propriedade privada e abrigava uma instituição de caridade para pessoas com deficiência, a Áustria realizou a desapropriação em 2017. Em 2019, o governo anunciou que o imóvel seria reformado e transformado em delegacia. Antes da conversão, a única indicação de sua importância histórica era uma pedra na calçada, proveniente do campo de concentração de Mauthausen, com a inscrição “Fascismo nunca mais”, sem menção a Hitler. A pedra permanece no local. A fachada branca agora exibe apenas a palavra “Polícia”.
Objetivo de desassociar o local de Hitler
“O objetivo foi evitar qualquer associação com Adolf Hitler, para retirar esse caráter mítico”, disse a jornalistas Stephan Mlczoch, chefe do departamento de história do Ministério do Interior da Áustria, durante visita ao prédio. O culto à personalidade de Hitler foi incentivado pelos nazistas, que transformaram a “casa de nascimento do Führer” em museu de arte. Hitler viveu ali por apenas algumas semanas em 1889, antes de sua família se mudar, explicou Mlczoch.
Simbolismo da polícia democrática
“A polícia atual, nossa polícia federal austríaca, é o exato oposto do simbolismo ligado a este local. Nossa polícia representa a democracia e o Estado de Direito”, afirmou o ministro do Interior, Gerhard Karner, na cerimônia de inauguração. Passantes costumam parar para tirar fotos, mas suas opiniões sobre Hitler geralmente não são conhecidas. Autoridades locais afirmaram que hoje há apenas “incidentes isolados” envolvendo visitantes, menos do que antes.
Reação da população e proibição de símbolos nazistas
Sem dar mais detalhes, as autoridades destacaram que a saudação nazista e outros símbolos do nazismo são proibidos na Áustria. Questionado sobre a reação da população ao projeto, o prefeito Johannes Waidbacher disse à Reuters: “Acho que, no geral, os moradores de Braunau aceitaram e conseguem conviver com isso”. Waidbacher integrou uma comissão que recomendou que o prédio tivesse uso assistencial ou administrativo. No fim, instalar ali uma entidade beneficente o tornaria acessível demais ao público, afirmou. “Acho que não é uma má abordagem, mas se vai funcionar como todos esperamos, teremos que esperar para ver”, disse.
Críticas do Comitê de Mauthausen
Há oposição à iniciativa, inclusive do Comitê de Mauthausen, principal grupo de sobreviventes do Holocausto na Áustria, que argumenta que uma delegacia é inadequada e que deveria haver mais esforço para destacar os crimes de Hitler. “Todo ano, no memorial do campo de concentração de Mauthausen, há uma cerimônia para dizer: nunca mais. E em Braunau estão dizendo: vamos esquecer o mais rápido possível”, afirmou Robert Eiter, do Comitê de Mauthausen e da Rede Contra o Racismo e o Extremismo de Direita.
Contexto histórico e visão de moradores
Durante décadas, a Áustria sustentou que foi a primeira vítima do nazismo, ao ser anexada pela Alemanha de Hitler em 1938. Hoje reconhece que austríacos também foram perpetradores, mas raramente aprofunda essa discussão. “O mundo não vai esquecer onde nasceu o maior assassino em massa da história. A Wikipédia não vai mudar isso”, disse Eiter, acrescentando que não haverá redução no número de neonazistas que fazem “peregrinação a Braunau”. Alguns moradores locais questionaram a conversão. “Eu teria preferido que fizessem outra coisa, mas é o que é”, disse Irene, de 74 anos, acrescentando que gostaria que a instituição de caridade tivesse permanecido. A maioria, porém, demonstrou apoio. “É ótimo, uma boa ideia”, afirmou o corretor de imóveis Thomas Spreitz. “De vez em quando havia grupos (neonazistas) ali, e agora isso é coisa do passado.”



