Urubu se desequilibra e 'gira' jacaré no Pantanal; vídeo viraliza
Urubu gira jacaré no Pantanal e vídeo viraliza

Um urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) foi flagrado em uma situação inusitada no Pantanal de Mato Grosso: ao tentar se equilibrar sobre a carcaça de um jacaré que boiava no Rio Cuiabá, a ave fez o réptil girar diversas vezes na água. O vídeo, gravado pelo guia de turismo Mateus Filipe Rauber, de 33 anos, rapidamente intrigou internautas nas redes sociais.

Flagrante ocorreu durante passeio turístico

O registro foi feito no dia 9 de julho, entre os municípios de Porto Jofre e Poconé (MT). Mateus acompanhava uma família de alemães em um passeio que buscava avistar onças-pintadas, mas o grupo foi surpreendido pela cena. “O que me chamou a atenção, e não é comum de se ver, é esse comportamento do urubu não conseguindo se equilibrar em cima do jacaré (que já estava bem inchado), gerando muita curiosidade e uma cena divertida”, relatou o guia.

Mateus, que tem experiência em tours pelo Pantanal, explicou que urubus se alimentando de jacarés mortos é algo frequente. A particularidade do flagrante foi o desequilíbrio da ave. “Presenciar uma cena como essa é o que dá sentido ao meu trabalho. Entendo que esses momentos são lições de humildade e de respeito ao ciclo natural das coisas”, completou.

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Especialista explica comportamento da ave

O ornitólogo Guilherme Brito, especialista em urubus, identificou a ave como um urubu-de-cabeça-preta, uma das espécies mais comuns no Brasil e conhecida pelo comportamento oportunista. Ele reforçou que encontrar a ave sobre carcaças no Pantanal não é raro, mas a dificuldade de equilíbrio chamou atenção. “O que chama atenção é a dificuldade do urubu em se equilibrar sobre a carcaça inchada, o que acabou criando essa situação curiosa”, explicou. A ave não girou o jacaré de forma proposital; a situação saiu do controle porque o urubu não conseguia estabilizar o próprio corpo para iniciar a alimentação.

Brito detalhou que os urubus-de-cabeça-preta enfrentam desafios ao tentar consumir jacarés, pois não têm força suficiente para romper o couro espesso do réptil. Por isso, aproveitam aberturas naturais, como olhos, narinas e região cloacal, ou aguardam o rompimento pela decomposição. “O único urubu que ocorre no Brasil capaz de abrir uma carcaça mais resistente é o urubu-rei”, destacou.

Por que o jacaré boiava?

O herpetólogo Willianilson Pessoa afirmou que o réptil filmado provavelmente é um jacaré-do-pantanal (Caiman yacare), mas não descartou a possibilidade de ser um jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris). A causa da morte não pôde ser determinada pelas imagens; as hipóteses incluem idade avançada, ataques de predadores ou ação humana, como caça e acidentes com barcos.

O processo de decomposição explica a flutuação: vertebrados produzem gases após a morte, inflando o corpo. “O animal fica cheio de gás, funcionando basicamente como um balão ou uma bexiga, o que o faz boiar por alguns dias. Ele só afundará se o corpo ‘explodir’ ou se um animal necrófago perfurar a carcaça, permitindo a saída dos gases”, explicou Pessoa. Assim, a carcaça afunda apenas quando os gases escapam, seja pelo rompimento natural ou pela ação de aves como os urubus.

Riscos para o urubu e papel ecológico

Embora a carcaça não represente risco imunológico, o local da alimentação pode expor a ave a predadores, como outros jacarés ou sucuris. Ainda assim, Pessoa lembrou que a cena faz parte da dinâmica natural do bioma. Os urubus exercem um papel essencial nos ecossistemas ao consumir animais mortos e acelerar a decomposição. “Eles evoluíram se alimentando de matéria morta. Possuem ferramentas imunológicas, secreções estomacais muito fortes e resistência a diversos patógenos”, contou Brito.

O flagrante uniu comportamento animal, curiosidade científica e bom humor, somando milhares de visualizações e comentários nas redes sociais.

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