Mudanças climáticas podem alterar vegetação tropical em décadas
Mudanças climáticas podem alterar vegetação tropical em décadas

Estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revela que as mudanças climáticas atuais podem causar, em poucas décadas, impactos na vegetação tropical equivalentes aos observados ao longo de 3,3 milhões de anos. A pesquisa, publicada no Journal of Biogeography, combinou dados de satélite, registros paleoclimáticos e algoritmos de aprendizado de máquina para reconstruir a distribuição da vegetação tropical desde o fim do Plioceno até o presente e projetar cenários para 2050.

Transformações lentas ao longo de milhões de anos

Os trópicos cobrem menos de um terço da superfície terrestre, mas abrigam mais da metade das espécies conhecidas. A diversidade de ambientes — florestas, savanas, campos, desertos — é resultado de milhões de anos de mudanças climáticas que redesenharam a paisagem tropical. Há 3,2 milhões de anos, quando o planeta estava quase quatro graus mais quente que hoje, as florestas tropicais atingiram sua menor extensão no período analisado: a Amazônia ocupava menos da metade da área atual, e a Mata Atlântica estava reduzida a menos de 5% de sua extensão potencial. Savanas dominavam paisagens hoje cobertas por florestas densas.

Na África, o continente tropical que mais mudou ao longo do período, as florestas sempre foram escassas, com savanas dominantes. O Saara, hoje o maior deserto quente do mundo, abrigava mosaicos de arbustos e vegetação esparsa no Plioceno. Com os ciclos de glaciação dos últimos dois milhões de anos, as florestas oscilaram: avançaram nos períodos mais quentes e recuaram nos mais frios. Há 21 mil anos, no auge da última era de gelo, a Amazônia perdeu quase um terço de sua área, mas manteve um núcleo contínuo, nunca se fragmentando completamente. Já a Mata Atlântica se partiu em dois blocos separados por centenas de quilômetros de vegetação aberta.

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Estabilidade e refúgios de biodiversidade

No sudeste asiático, quase um terço do Arquipélago Malaio manteve suas florestas intactas por mais de três milhões de anos, tornando a região a área tropical mais estável do planeta. Cerca de 22% dos trópicos permaneceram climática e vegetacionalmente estáveis ao longo de todo o período analisado. Essas áreas funcionaram como refúgios, acumulando biodiversidade ao longo de milhões de anos. Muitas espécies que vivem nesses refúgios não existem em nenhum outro lugar.

As transformações foram lentas, medidas em centenas de milhares de anos, tempo suficiente para as espécies migrarem, se adaptarem ou evoluírem. Ainda assim, tiveram consequências: a megafauna sul-americana — como preguiças gigantes, tatus do tamanho de carros e mastodontes — não sobreviveu a essas mudanças, juntamente com outros fatores, como a chegada do homem. "Mudanças climáticas naturais, por mais lentas que sejam, têm custo", destaca Ubirajara Oliveira, coordenador do estudo.

Projeções para 2050: mudanças abruptas e destrutivas

As projeções para 2050, no cenário de emissões mais elevadas, indicam que a temperatura nos trópicos pode subir entre dois e quatro graus. Na Amazônia, o aumento pode chegar a quatro graus. A combinação de calor e seca pode transformar florestas densas em vegetação aberta, com a Amazônia podendo perder mais de um terço de suas florestas. O Arquipélago Malaio, estável por 3,3 milhões de anos, pode ver suas florestas reduzidas em mais de 40%.

A magnitude dessas mudanças é comparável ao que aconteceu ao longo de milhões de anos, mas a diferença é o tempo. "Quando o ar se desloca suavemente ao longo de minutos, sentimos uma brisa. Quando a mesma massa de ar percorre a mesma distância em uma fração de segundo, temos uma explosão. A mudança comprimida no tempo se torna destrutiva", compara Oliveira. "O que está acontecendo com o clima dos trópicos se parece com isso. Transformações que levaram milhões de anos podem se repetir em décadas."

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Consequências para a biodiversidade

Mudanças lentas causaram extinções no passado. Se comprimirmos mudanças de magnitude semelhante em poucas décadas, as consequências podem ser incomparavelmente maiores. As espécies que evoluíram em áreas estáveis, moldadas por milhões de anos de constância, podem ser as primeiras a sofrer. "Nunca precisaram lidar com mudanças rápidas. A estabilidade que as protegeu pode se tornar a sua vulnerabilidade", alerta o pesquisador.

Ubirajara Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.