A atriz britânica Samantha Morton, indicada ao Oscar por sua atuação em Ela é o Espião (2002), expôs em entrevista recente como o etarismo — o preconceito etário — afeta profundamente a carreira de atrizes em Hollywood. Segundo ela, a indústria cinematográfica norte-americana ainda impõe padrões etários rígidos, especialmente para mulheres, que veem suas oportunidades diminuírem drasticamente após os 40 anos.
O relato de Samantha Morton
Em conversa com o jornal britânico The Guardian, Morton, de 49 anos, afirmou que a pressão estética e a falta de papéis substanciais para mulheres mais velhas são problemas estruturais. "É muito difícil encontrar personagens interessantes quando você passa dos 45. Os estúdios ainda acreditam que o público só se identifica com mulheres jovens, o que é um erro enorme", declarou a atriz.
Morton também citou exemplos concretos de roteiros que recebeu, nos quais suas personagens eram sempre reduzidas a mães ou esposas sem profundidade. "Recebo ofertas para interpretar a mãe do protagonista, sem qualquer nuance. É como se minha trajetória e minha experiência não tivessem valor", desabafou.
Números que revelam a disparidade
Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) de 2023 mostrou que apenas 23% dos papéis femininos em filmes de grande orçamento são destinados a atrizes acima de 40 anos, enquanto para homens esse percentual é de 48%. A pesquisa analisou 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos e revelou que a maioria das protagonistas femininas tem menos de 35 anos.
Essa disparidade não é apenas etária, mas também de oportunidades: atrizes mais velhas recebem salários menores e menos indicações a prêmios. Segundo o levantamento, apenas 12% das nomeações ao Oscar de Melhor Atriz nos últimos dez anos foram para mulheres com mais de 50 anos.
Impacto na carreira e na representatividade
O etarismo não afeta apenas as atrizes individualmente, mas também a representatividade no cinema. "Quando não vemos mulheres mais velhas em papéis complexos, a sociedade internaliza que elas são invisíveis. Isso é perigoso", alertou Morton, que também é diretora e roteirista.
A atriz destacou que a situação é ainda pior para atrizes negras e latinas, que enfrentam uma dupla discriminação. "Se para uma mulher branca é difícil, imagine para uma mulher negra ou latina. Elas são praticamente excluídas", completou.
Iniciativas para mudar o cenário
Algumas iniciativas têm buscado reverter esse quadro. A plataforma de streaming Netflix, por exemplo, anunciou em 2024 a criação de um fundo de US$ 50 milhões para financiar projetos com atrizes acima de 45 anos em papéis principais. Além disso, festivais como o de Cannes têm incluído debates sobre etarismo em suas programações.
Morton, no entanto, acredita que a mudança precisa ser mais profunda. "Não adianta apenas criar cotas ou fundos se os roteiristas e diretores não escreverem personagens femininas com complexidade. Precisamos de histórias reais sobre mulheres maduras, com desejos, conflitos e ambições", afirmou.
Reações e próximos passos
A declaração de Morton gerou ampla repercussão nas redes sociais, com outras atrizes como Julianne Moore e Helen Mirren apoiando suas críticas. A hashtag #EtarismoEmHollywood ficou entre os trending topics no Twitter por dois dias consecutivos.
Especialistas em indústria cultural apontam que, embora haja avanços, o ritmo é lento. "A mudança de mentalidade leva tempo, mas é inevitável. O público está cada vez mais diverso e exige representatividade", comentou a professora de cinema da USP, Mariana Costa, em entrevista ao O Globo.
Enquanto isso, Samantha Morton segue trabalhando em projetos independentes e na direção de seu primeiro longa, que pretende escalar atrizes acima de 50 anos para todos os papéis femininos. "Quero mostrar que talento não tem idade", concluiu.



