EUA revogam visto da embaixadora brasileira em meio a crise diplomática
EUA revogam visto da embaixadora brasileira em crise diplomática

O governo dos Estados Unidos anunciou, nesta terça-feira (4), a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida, detalhada pelo Departamento de Estado em nota enviada ao g1, é uma resposta direta à demora do governo brasileiro em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada americana em Brasília. Washington, no entanto, esclareceu que a decisão não representa a expulsão da diplomata e que outras medidas continuam sendo consideradas.

Impasse na nomeação de Daniel Perez

Segundo o Departamento de Estado, o governo americano manteve contato com autoridades brasileiras durante semanas para tentar destravar a nomeação do novo embaixador. "Nos comunicamos continuamente com o governo brasileiro durante semanas e demos ao governo brasileiro todas as oportunidades para fazer a coisa certa. Ainda assim, eles continuaram adiando e criando obstáculos", afirmou o órgão.

Por outro lado, conforme o blog da Ana Flor, a indicação de Perez causou mal-estar no governo brasileiro porque o anúncio foi feito antes de uma consulta reservada às autoridades brasileiras. Tradicionalmente, a nomeação de um embaixador só é anunciada após o país anfitrião sinalizar que aceita a indicação. No caso de Perez, o pedido de aval foi feito ao governo brasileiro mais de duas semanas após o anúncio pela Casa Branca.

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Reciprocidade e outras medidas

Os EUA classificaram a revogação do visto como uma resposta às restrições impostas pelo Brasil a diplomatas americanos. Segundo o Departamento de Estado, outras medidas diplomáticas permanecem sobre a mesa caso o governo brasileiro continue adiando ou se recuse a conceder o aval para o novo embaixador. Vale lembrar que a medida desta quarta foi anunciada 10 dias após o Itamaraty negar vistos a dois diplomatas do Departamento de Estado, apontados pelo jornal The Washington Post como integrantes de uma estratégia para questionar o sistema eleitoral brasileiro. Os EUA negam que os diplomatas tinham como objetivo interferir nas eleições.

O governo brasileiro já esperava retaliações, como mostrou o blog da Andréia Sadi. Em nota, o Departamento de Estado afirmou que "lamentamos a situação em que nos encontramos, mas deixamos muito claro que a reciprocidade é a regra do jogo. Se outro governo não permitir que realizemos nosso trabalho da maneira adequada, responderemos com medidas recíprocas."

Política 'America First'

O Departamento de Estado também relacionou a decisão à política "America First" ("América em Primeiro Lugar"), que orienta a política externa do governo Trump. "O presidente Trump está formando uma equipe diplomática de alto nível alinhada à política 'America First' em todo o governo, sujeita ao aconselhamento e à aprovação do Senado. Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos", disse o órgão.

Um porta-voz do Departamento de Estado esclareceu que a embaixadora não foi declarada persona non grata, mas que precisará solicitar um novo visto americano caso deixe os EUA e queira retornar. A revogação não significa expulsão, e a diplomata poderá permanecer no país, mas sem visto válido. O documento poderá ser restabelecido caso o Brasil conceda o aval para a nomeação de Perez.

Perfil de Daniel Perez

Daniel Perez, de 38 anos, é presidente da Câmara dos Deputados da Flórida e foi indicado por Trump em 1º de junho. Filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York e mudou-se para a Flórida em 1993. Membro do Partido Republicano, Perez demonstra apoio às políticas do presidente. Ele ainda precisa ser confirmado pelo Senado americano; uma comissão já aprovou sua indicação, mas o plenário ainda não votou. Se aprovado, será o primeiro embaixador dos EUA no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada por Joe Biden, em janeiro de 2025.

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Escalada de tensões

As relações entre Brasil e EUA começaram a se deteriorar em julho do ano passado, quando Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros, justificando como "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Negociações posteriores reduziram as tensões, e Lula e Trump se encontraram duas vezes, incluindo uma visita de Lula a Washington em maio. No entanto, a relação voltou a se desgastar no fim de maio, quando os EUA classificaram as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Em 22 de julho, entrou em vigor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio, citando práticas como o sistema PIX e a regulação de plataformas digitais. Dois dias depois, outra tarifa de 12,5% foi anunciada contra o Brasil e dezenas de outros países, sob alegação de trabalho forçado. No dia 24 de julho, o Itamaraty negou vistos aos diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson, citados pelo The Washington Post como parte de uma estratégia para questionar o sistema eleitoral brasileiro. Os EUA negam interferência e afirmam que a visita tinha como objetivo discutir "integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão".

Nos bastidores, diplomatas brasileiros classificaram a revogação do visto como uma "chantagem". O Itamaraty não havia comentado o anúncio até a última atualização desta reportagem.