O governo brasileiro decidiu adotar uma estratégia de 'toma lá, dá cá' para lidar com o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A medida, que prevê retaliação a produtos americanos e negociação paralela, foi detalhada em coluna publicada no jornal Valor Econômico. A abordagem busca equilibrar a defesa dos interesses nacionais com a manutenção de um canal de diálogo com Washington.
O que é o 'toma lá, dá cá'?
O termo, comum no vocabulário político brasileiro, refere-se a uma troca de favores ou concessões mútuas. No contexto do tarifaço, significa que o Brasil não ficará passivo diante das sobretaxas impostas por Trump sobre produtos como aço e alumínio. Segundo a coluna, o Itamaraty e o Ministério da Economia já trabalham em uma lista de produtos americanos que poderiam sofrer retaliação, incluindo itens como soja, milho e carnes.
No entanto, a estratégia não se limita à retaliação. Há também a intenção de negociar com os EUA para reduzir o impacto das tarifas. A coluna menciona que o governo brasileiro pretende usar a ameaça de retaliação como ferramenta de barganha, buscando concessões para setores como o agropecuário.
Impactos no agronegócio e na economia
O tarifaço de Trump afeta diretamente o agronegócio brasileiro, que é um dos principais exportadores de produtos como soja e carne para os EUA. Segundo dados do Ministério da Agricultura, as exportações para os EUA somaram US$ 10 bilhões em 2024. Com as tarifas, a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano pode cair, pressionando os preços internos e a renda dos produtores.
Especialistas ouvidos pela coluna alertam que uma guerra comercial prolongada pode ter efeitos negativos para ambos os países. O Brasil, no entanto, tem a vantagem de poder redirecionar suas exportações para outros mercados, como a China e a União Europeia. A coluna cita o caso da soja, que já foi exportada em grande quantidade para a China em períodos de tensão comercial entre EUA e China.
Reações no Congresso e no setor produtivo
A estratégia do 'toma lá, dá cá' gerou reações no Congresso Nacional. Parlamentares da bancada ruralista, que representam o agronegócio, defenderam uma resposta firme às tarifas americanas, mas sem romper o diálogo. Já setores da indústria pedem medidas de proteção à produção nacional, como a elevação de tarifas de importação para produtos que competem com os brasileiros.
Em nota, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmou que 'a retaliação deve ser seletiva e focada em produtos que não prejudiquem a cadeia produtiva brasileira'. A entidade também defendeu a aceleração de acordos comerciais com outros países, como o Mercosul e a União Europeia.
Negociação paralela
Além da retaliação, o governo brasileiro pretende manter um canal de negociação com os EUA. A coluna revela que o embaixador brasileiro em Washington já foi instruído a buscar um diálogo com o governo Trump para tentar reverter as tarifas. A ideia é apresentar dados que mostrem o impacto negativo das tarifas para a economia americana, já que muitos produtos brasileiros são insumos para a indústria dos EUA.
Segundo a coluna, o presidente Jair Bolsonaro já teria conversado com Trump por telefone, mas sem avanços concretos. A expectativa é que as negociações sejam retomadas nas próximas semanas, com a visita de uma comitiva brasileira a Washington.
Riscos e oportunidades
O 'toma lá, dá cá' envolve riscos, como o aprofundamento da tensão comercial e possíveis retaliações americanas. No entanto, também abre oportunidades para o Brasil diversificar sua pauta de exportações e fortalecer parcerias com outros países. A coluna ressalta que o Brasil tem um superávit comercial com os EUA, o que dá ao país certa vantagem nas negociações.
Economistas ouvidos pela coluna avaliam que a estratégia é arriscada, mas necessária. 'O Brasil não pode ceder a pressões unilaterais, mas também não deve fechar as portas ao diálogo. O equilíbrio é a chave', afirmou um analista de comércio exterior.
Próximos passos
O governo brasileiro deve anunciar nos próximos dias a lista de produtos que serão alvo de retaliação. A medida deverá ser publicada no Diário Oficial da União. Enquanto isso, o Itamaraty prepara uma contraproposta para apresentar aos EUA, com a promessa de reduzir tarifas em outros setores como forma de compensação.
A expectativa é que o tema domine a agenda diplomática do país nas próximas semanas, com possíveis desdobramentos na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), marcada para dezembro. O Brasil já sinalizou que pode recorrer à OMC caso as negociações não avancem.
Com a estratégia de 'toma lá, dá cá', o Brasil busca mostrar que não está disposto a aceitar passivamente as decisões de Trump, mas também não quer uma guerra comercial que prejudique a economia. O tempo dirá se a tática funcionará.



