A inadimplência em empréstimos ao consumidor na Argentina atingiu 12,1% em abril, o maior nível em duas décadas, segundo dados do banco central. O índice subiu por 17 meses consecutivos, impulsionado pelo forte aumento das taxas de juros no ano passado. A consultoria 1816 Economía & Estrategia estima que mais de um quarto dos tomadores de crédito já não são considerados aptos a obter novos empréstimos.
Esperanças frustradas de recuperação
O presidente Javier Milei reduziu a inflação de três dígitos e fez a economia voltar a crescer desde que assumiu em 2023. Seu plano de reformas rendeu elevações na classificação de risco soberano, a mais recente concedida pela Moody's Ratings na terça-feira. No entanto, o governo contava com uma retomada do crédito ao consumidor para ampliar a recuperação liderada pelas exportações e fortalecer os gastos das famílias, aumentando as chances de reeleição em 2027.
Em vez disso, a inadimplência em cartões de crédito, financiamento de veículos e outros bens subiu para 12,1%, o maior nível em duas décadas, segundo os dados mais recentes do banco central. "Você ficou sem políticas para estimular a economia", afirmou Miguel Kiguel, ex-secretário de Finanças da Argentina e atual diretor-executivo da consultoria EconViews. "O estímulo fiscal está fora de questão porque não há dinheiro, e o crédito está sendo limitado justamente por causa da inadimplência."
Bancos enfrentam piora na qualidade do crédito
Os bancos expandiram agressivamente a concessão de crédito com a estabilização econômica, mas viram o boom se voltar contra eles. Os empréstimos inadimplentes ao consumidor não atingiam níveis tão elevados desde o período posterior à crise argentina de 2001-2002. Isso contribui para um dos piores anos do setor em termos de rentabilidade desde a pandemia e pesa sobre as ações das instituições financeiras.
"É uma consequência lógica, porque no ano passado os bancos voltaram a agir como bancos", disse o ministro da Economia, Luis Caputo, durante um evento neste mês. "Antes, eles simplesmente captavam depósitos e os emprestavam ao Tesouro ou ao banco central. Nesse novo papel, o crédito cresceu rapidamente e, como parte desse processo, a inadimplência aumentou porque as taxas de juros no ano passado estavam muito, muito altas."
Os bancos inicialmente consideraram essa deterioração temporária, mas têm adiado repetidamente as expectativas de melhora. "Continuamos vendo que esses segmentos permanecem problemáticos", afirmou Gonzalo Fernández Covaro, diretor financeiro do Grupo Financiero Galicia, durante a teleconferência de resultados em maio, citando a estagnação da renda das famílias. "A expectativa é que, ao longo do ano, à medida que a inflação continue caindo e a economia cresça, possamos voltar a conceder crédito para diferentes segmentos. Mas, até agora, ainda não estamos vendo isso."
Autoridades incentivam reestruturação
A questão se tornou importante a ponto de as autoridades começarem a incentivar os bancos a refinanciar clientes inadimplentes. Os bancos estatais Banco Nación e Banco Ciudad lançaram programas de reestruturação que ampliam os prazos de pagamento e reduzem os custos dos empréstimos, enquanto Caputo elogiou publicamente iniciativas semelhantes de instituições privadas.
Autoridades do banco central esperam que a inadimplência tenha atingido o pico em junho, em parte porque as taxas de juros se estabilizaram nos últimos meses, segundo uma apresentação divulgada no fim de maio. Mas economistas e banqueiros esperam apenas uma recuperação gradual, argumentando que o crédito às famílias dificilmente se tornará um motor relevante da atividade econômica antes das eleições de outubro de 2027.
Transição econômica e impacto no crédito
Economistas afirmam que as dificuldades financeiras das famílias refletem mais do que um aumento temporário da inadimplência. A Argentina passa por uma rara transição: de um sistema financeiro moldado pela inflação crônica e pelo financiamento do governo para outro em que os bancos voltam a obter lucros avaliando o risco de crédito. Durante décadas, a inflação elevada desestimulou a concessão de crédito, deixando o país com um dos sistemas bancários menos dependentes de crédito da América Latina.
Embora a inflação anual na Argentina, em torno de 30%, ainda seja elevada, caiu de mais de 200% em 2024. Para tomadores de crédito acostumados a ver o valor real de suas dívidas diminuir rapidamente, essa mudança exigiu grande adaptação. "A redução da inflação tem um efeito significativo sobre a velocidade com que as dívidas perdem valor", afirmou Marcelo De Gruttola, analista da Moody's Ratings em Buenos Aires. "Houve uma mudança muito rápida e significativa no ambiente macroeconômico, e isso alterou o comportamento dos tomadores de crédito de maneiras difíceis de prever."
Desigualdade regional e baixo crescimento salarial
Os argentinos mais endividados tendem a viver longe da cidade de Buenos Aires, onde apenas 16% dos adultos estão com empréstimos em atraso. Em várias províncias do interior, essa taxa é o dobro, segundo a consultoria Equilibria. O baixo crescimento dos salários e um mercado de trabalho enfraquecido dificultaram que muitas famílias quitassem suas dívidas, enquanto os bancos endureceram os critérios para concessão de crédito e passaram a direcionar novos empréstimos para empresas com menor risco.
Como consequência, o crédito ao consumidor passou a desempenhar um papel muito menor na recuperação econômica do que muitos economistas esperavam. Mesmo após quase dobrar desde que Milei assumiu a Presidência, o volume de crédito ainda equivale a apenas cerca de 12% do PIB. No Brasil, maior economia da América Latina, essa proporção está mais próxima de 80%.
Investidores perdem otimismo com bancos
Há muito tempo os investidores veem o sistema bancário argentino como um dos principais beneficiários da estabilização macroeconômica, com base na expectativa de amplo espaço para expansão do crédito. Esse otimismo, porém, diminuiu. As ações dos bancos argentinos tiveram desempenho inferior ao do índice Merval, à medida que os investidores avaliam os efeitos negativos da deterioração da qualidade do crédito e da proximidade das eleições.
"Os bancos tendem a ser mais sensíveis às incertezas macroeconômicas e políticas", afirmou Ola El-Shawarby, gestora de portfólio de ações da VanEck, em Nova York. "Embora nossa visão de longo prazo continue positiva, neste momento vemos oportunidades mais atraentes no setor de recursos naturais."



