O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, declarou nesta quarta-feira que o país está disposto a tomar todas as medidas necessárias para apoiar o iene japonês. A afirmação foi feita durante uma entrevista à emissora de TV japonesa NHK, em meio à crescente pressão sobre a moeda japonesa, que atingiu mínimas históricas frente ao dólar.
Bessent ressaltou que o fortalecimento do iene é do interesse tanto do Japão quanto da economia global, e que os EUA estão prontos para atuar em conjunto com as autoridades japonesas, se necessário. "Estamos preparados para fazer qualquer coisa para apoiar o iene", disse o secretário, ecoando o compromisso do governo americano com a estabilidade cambial.
Contexto de pressão sobre o iene
O iene tem sofrido forte desvalorização nos últimos meses, impulsionado pelo diferencial de juros entre os Estados Unidos e o Japão. Enquanto o Federal Reserve mantém taxas elevadas, o Banco do Japão (BoJ) segue com política monetária ultrafrouxa, o que enfraquece a moeda japonesa. Na semana passada, o dólar chegou a ser negociado a mais de 160 ienes, maior nível desde 1990, o que gerou alerta entre as autoridades japonesas.
Em resposta, o governo japonês já realizou intervenções cambiais no mercado, vendendo dólares e comprando ienes, numa tentativa de conter a desvalorização. Contudo, analistas apontam que essas medidas têm efeito limitado sem a cooperação dos EUA, que historicamente preferem um dólar mais forte.
Cooperação internacional em foco
As declarações de Bessent surgem em um momento de intensa negociação entre os dois países. Na reunião do G7, realizada no mês passado, os ministros de finanças discutiram a volatilidade cambial e reafirmaram o compromisso com taxas de câmbio determinadas pelo mercado, mas com o reconhecimento de que movimentos excessivos podem ser prejudiciais.
Especialistas veem a fala de Bessent como um sinal de que os EUA estão dispostos a aceitar um iene mais forte, mesmo que isso signifique uma moeda americana mais fraca. "É uma mudança retórica significativa", avalia o economista-chefe da consultoria Oxford Economics, John Smith, em nota a clientes. "Se os EUA realmente agirem, isso pode representar uma virada na política cambial global."
Impactos para a economia global
A possível intervenção coordenada entre EUA e Japão pode ter efeitos amplos. Para o Japão, um iene mais forte reduz o custo das importações, aliviando a inflação, mas prejudica as exportadoras, que perdem competitividade. Já para os EUA, um dólar mais fraco pode ajudar a reduzir o déficit comercial, mas também pode pressionar a inflação doméstica.
No mercado financeiro, a notícia já provoca reações. O iene registrou alta de 1,2% frente ao dólar após as declarações, enquanto as bolsas asiáticas operam em território misto. Investidores aguardam agora possíveis medidas concretas do Tesouro americano e do BoJ.
Bessent não detalhou quais instrumentos poderiam ser utilizados, mas mencionou que as autoridades têm "ferramentas adequadas" para lidar com a situação. "Não vamos hesitar em usá-las", afirmou.
Próximos passos
O secretário do Tesouro americano deve se reunir com o ministro das Finanças do Japão, Shunichi Suzuki, nos próximos dias, em Tóquio, para discutir a questão. Espera-se que os dois firmem um acordo de cooperação mais amplo, que pode incluir linhas de swap de moedas entre os bancos centrais.
Enquanto isso, o mercado permanece atento aos dados de inflação dos EUA, que serão divulgados na próxima semana, e que podem influenciar as decisões do Fed sobre juros. Um corte de juros nos EUA, ainda que pequeno, poderia aliviar a pressão sobre o iene.
Analistas alertam, no entanto, que intervenções cambiais são medidas de curto prazo e que a solução duradoura depende de um alinhamento das políticas monetárias. "Sem uma mudança de postura do BoJ, a tendência de desvalorização do iene pode continuar", pondera a economista-chefe do Banco Mizuho, Yuki Tanaka.



