A decisão do Federal Reserve (Fed) de manter os juros entre 3,5% e 3,75% veio acompanhada de uma dissidência inédita desde 2016: três dos 12 membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) votaram a favor de um aumento. Os votos contrários foram dos presidentes dos Fed regionais de Cleveland (Beth Hammack), Minneapolis (Neel Kashkari) e Dallas (Lorie Logan). Segundo Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, esses membros já defendiam explicitamente uma política monetária mais restritiva diante da persistência da inflação acima da meta.
Crescente discordância no comitê
A dissidência sinaliza um ambiente de maior apreensão no mercado sobre uma possível alta de juros, caso a inflação norte-americana siga pressionada e os dados de mercado de trabalho não indiquem desaceleração. Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, destaca que a possibilidade de elevação na reunião de setembro aumentou. Pesam no cenário o aumento do preço da energia devido ao conflito com o Irã, as tarifas comerciais e a alta das empresas de Big Tech e inteligência artificial, que pressionam a demanda, aponta Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos.
André Valério, economista sênior do Inter, analisa que é a primeira vez desde 2016 em que três membros divergem na mesma direção, mostrando a discordância crescente dentro do comitê, com alguns membros cada vez mais preocupados com a dinâmica inflacionária.
Comunicado equilibrado, mas com viés de aperto
Para Vinicius Flores, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, o comunicado trouxe sinais opostos. O texto foi brando ao reconhecer que a inflação reflete, em parte, choques de oferta na energia, que não se combatem com juros altos. No entanto, a dissidência indica que o apetite por aperto monetário está crescendo. “O resultado é um comunicado equilibrado. Dovish no diagnóstico, hawkish na composição do voto”, afirma Flores.
A coletiva de imprensa, por sua vez, teve tom mais hawkish. Flores avalia que o presidente do Fed, Kevin Warsh, mostrou disposição para enfrentar questões ignoradas nos últimos cinco anos. Warsh considerou que os cinco anos de inflação acima da meta de 2% foram um erro grave, e que um problema dessa magnitude não se resolve em nove semanas. Ele também destacou as reformas em curso no Fed, que avançam mais rápido que o esperado. “O Fed de Warsh não está apenas decidindo sobre juros. Está revisando como mede a inflação, como avalia choques de oferta e como comunica suas decisões”, diz Flores.
Riscos para os juros americanos
Flores aponta que uma alta de juros não pode ser descartada, especialmente se o petróleo voltar a subir devido ao conflito no Oriente Médio ou se os dados de inflação nos EUA mostrarem alta. O barril tipo Brent opera novamente em torno de US$ 90, e a incerteza geopolítica pode elevá-lo a US$ 100, o que impediria a inflação de ceder, alerta André Valério.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, já revisou sua projeção e agora prevê uma elevação de juros no segundo semestre. “A divergência é relevante: sinaliza que uma ala do Comitê já vê espaço para retomar o aperto monetário e reforça a nossa leitura de que o balanço de riscos se deslocou para cima”, afirma. A Casa Branca mantém pressão política por cortes de juros, mas o Fed resiste com postura técnica e cautelosa.
“A reunião de setembro será a mais importante do segundo semestre”, afirma Flores. Para ele, o cenário-base ainda é de manutenção. “Os breakevens ancorados e a desaceleração gradual dos dados de atividade não justificam um aperto monetário adicional, desde que não haja um choque exógeno relevante nos preços de energia. Além disso, estamos diante de um Fed que está passando por mudanças estruturais positivas para a inflação”, complementa.
Reação do mercado e impactos no Brasil
Apesar da dissidência, a ausência de uma elevação imediata favoreceu os ativos de risco inicialmente. As bolsas americanas reagiram positivamente, com S&P 500 e Nasdaq ganhando tração. O rendimento dos títulos de dois anos recuou, e o dólar caiu ante uma cesta de moedas e também contra o real. No entanto, o fôlego foi curto, e os índices de bolsa passaram a cair. Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, pondera que o placar da votação limita uma reação otimista prolongada. Já Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, afirma que os juros dos Treasuries devem permanecer pressionados nos vencimentos mais curtos, enquanto o dólar tende a continuar forte, reduzindo o espaço para valorização de moedas emergentes.
Para Gabriel Foglieni, gerente de Investimentos da Eleva Invest, o debate no Fed não é mais sobre cortar, mas sobre subir. “Isso importa diretamente para o Brasil, porque um Fed mais duro fortalece o dólar e pressiona o câmbio justamente na semana em que o Copom se reúne para decidir a Selic”, diz. O contraponto fica no petróleo: se a queda recente se sustentar, parte da pressão energética se dissipa.
Perspectivas para a política monetária
Costa, da Mirae Asset, aponta que tanto o comunicado quanto a coletiva não trouxeram sinalização sobre os próximos passos. Warsh reiterou que a inflação é “uma escolha” e que a prioridade é restabelecer a estabilidade de preços. A composição dos votos reforça a percepção de viés de aperto, com a curva de juros precificando duas elevações de 25 pontos-base até o primeiro trimestre de 2027, segundo Costa.



