O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (27) que a economia brasileira está em situação melhor do que a da Argentina e classificou o presidente do país vizinho, Javier Milei, de "palhaço". A declaração ocorreu após Milei viajar ao Brasil para participar, no sábado (25), do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. No evento, o argentino fez críticas ao presidente Lula e chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes de "lixo careca".
Comparação econômica exige cautela
A comparação entre as economias dos dois países passou a alimentar o debate entre esquerda e direita, que buscam nos indicadores econômicos argumentos para defender quais governos ou linhas políticas apresentam melhores resultados. Para especialistas ouvidos pelo g1, porém, colocar Brasil e Argentina lado a lado exige cautela: as duas economias têm diferenças importantes de tamanho, estrutura produtiva e trajetória de inflação e estabilidade econômica. "A situação das duas economias hoje não é estritamente comparável, porque a Argentina vive um cenário similar ao que o Brasil enfrentava em meados da década de 1990", afirma Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV Ibre, em referência ao processo de combate à inflação.
Inflação e desemprego
Uma das principais diferenças está na inflação. Enquanto o Brasil controlou a alta dos preços com o Plano Real, a Argentina ainda enfrenta inflação elevada, apesar da forte desaceleração registrada nos últimos meses. O índice de preços argentino encerrou 2025 com alta de 31,5%, o menor patamar desde 2017, mas muito acima da inflação brasileira, que fechou o ano em 4,26%. Ao afirmar que a economia brasileira está em situação melhor, Durigan citou a inflação como um dos indicadores que sustentam essa avaliação. O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, explica que a inflação elevada na Argentina tem diversas causas, mas destaca a forte oscilação do peso argentino em relação ao dólar como um dos principais fatores. "A Argentina tem uma moeda muito desvalorizada e é bastante exposta aos choques da economia internacional por depender das exportações. Com isso, a desvalorização recorrente do peso acaba pressionando a inflação", diz.
A trajetória do desemprego seguiu movimentos semelhantes nos dois países, mas com taxas mais altas no Brasil nos últimos anos, segundo dados do FMI. Na Argentina, a desocupação vinha em queda até 2023. Após o Plano Motosserra, de Milei, a economia retraiu e o desemprego passou a subir. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou durante visita ao país nesta segunda-feira: "O desemprego na Argentina não é alto na comparação internacional, mas muitas pessoas trabalham na economia informal. As pequenas e médias empresas geram a maioria dos empregos. Devemos facilitar o acesso delas ao financiamento para que possam crescer e contratar mais trabalhadores". No Brasil, o mercado de trabalho se recuperou após a crise de 2015-2016 e a pandemia, registrando em 2025 a menor taxa média de desemprego da série histórica.
Pobreza e PIB
Um índice de pobreza calculado pelo Banco Mundial aponta que 26,2% da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza social em 2024, contra 24,1% na Argentina. Nos dados oficiais, porém, a parcela de pobres no Brasil é menor. Dados do IBGE mostram que a proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 27,3% em 2023 para 23,1% em 2024, uma redução de 8,6 milhões de brasileiros. Na Argentina, a pobreza aumentou inicialmente após o impacto do Plano Motosserra, mas recuou para 28,2% no segundo semestre de 2025, segundo o Indec.
A economia brasileira é cerca de três vezes maior que a argentina quando considerado o PIB em paridade de poder de compra (PPP). O PIB do Brasil fechou 2025 com alta de 2,3%, no quinto ano consecutivo de crescimento. O PIB da Argentina cresceu 4,4% em 2025, recuperando-se da retração de 1,3% em 2024. Foi o primeiro avanço sob a gestão de Milei.
Dívida pública e reservas
Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, ressalta que, sob Milei, a Argentina adotou um forte ajuste nas contas públicas, com cortes de gastos e geração de superávit primário. "Já o Brasil enfrenta um cenário de maior pressão fiscal, com aumento das despesas e crescimento da dívida pública", destaca. Dados do FMI mostram que a dívida bruta do governo brasileiro chegou a 93,3% do PIB, enquanto a da Argentina ficou em 80,3%. Após o ajuste, a Argentina voltou a registrar superávits fiscais, enquanto o Brasil registra déficits primários.
Com US$ 360,9 bilhões, o Brasil possui reservas internacionais muito superiores às da Argentina, que tem US$ 49 bilhões. Esse colchão de dólares ajuda o país a enfrentar turbulências. A diferença também aparece no risco de crédito: o CDS de 5 anos da Argentina é de 1.030,95 pontos, contra 124,40 do Brasil. "O Brasil tem como vantagem uma maior disponibilidade de reservas em dólares, uma dívida emitida majoritariamente em moeda local e desemprego controlado. Por outro lado, enfrenta desafios fiscais, com a trajetória de aumento da dívida pública", analisa Servideo.



