A incerteza econômica no Brasil atingiu um nível recorde em junho, segundo o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da Fundação Getulio Vargas (FGV). O índice subiu 12,3 pontos em relação a maio, alcançando 178,9 pontos, o maior valor desde o início da série histórica em 2003. O aumento reflete a combinação de fatores domésticos e externos, como a crise política, a desaceleração da economia global e a volatilidade nos mercados financeiros.
Impactos nos Investimentos
A alta incerteza tem paralisado decisões de investimento de empresas e famílias. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 62% das indústrias brasileiras adiaram ou cancelaram projetos de expansão nos últimos três meses. O economista-chefe da CNI, Renato da Fonseca, afirmou: "A incerteza é o principal obstáculo para a retomada do investimento produtivo. Sem previsibilidade, as empresas não arriscam". O setor de construção civil foi um dos mais afetados, com queda de 8% na contratação de novos projetos no segundo trimestre.
Consumo e Inflação
O consumo das famílias também sofreu impacto. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV caiu 5,2% em junho, atingindo o menor nível em dois anos. A inflação elevada, que acumula alta de 9,8% nos últimos 12 meses, corrói o poder de compra e gera cautela. A economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), destacou: "A incerteza faz com que as pessoas adiem compras de bens duráveis e priorizem a poupança, o que desacelera a economia". O varejo registrou queda de 1,5% nas vendas em maio, comparado ao mês anterior.
Reformas Estruturais
Especialistas apontam que a redução da incerteza depende de avanços nas reformas estruturais, especialmente a tributária e a administrativa. O governo federal enviou ao Congresso uma proposta de reforma tributária que simplifica impostos e reduz a carga sobre empresas, mas a tramitação enfrenta resistências. O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, afirmou: "A reforma tributária é essencial para dar previsibilidade ao sistema e estimular investimentos. Esperamos aprovação até o final do ano".
Cenário Externo
O cenário internacional também contribui para a incerteza. A guerra na Ucrânia, a alta dos juros nos Estados Unidos e a desaceleração da economia chinesa geram volatilidade nos mercados globais. O Brasil, como país emergente, sofre com a fuga de capitais e a desvalorização do real. A taxa de câmbio fechou a R$ 5,40 por dólar, uma desvalorização de 12% no ano. O Banco Central elevou a Selic para 13,75% ao ano, tentando conter a inflação, mas isso encarece o crédito e inibe o consumo.
Perspectivas
Para o segundo semestre, as perspectivas são de manutenção da incerteza, segundo analistas. O mercado financeiro projeta crescimento do PIB de apenas 0,7% em 2026, bem abaixo da média histórica. A FGV estima que o IIE-Br deve permanecer acima de 170 pontos até o final do ano, indicando ambiente desfavorável para negócios. A saída, segundo economistas, passa por um choque de credibilidade fiscal e avanço nas reformas. A ministra da Economia, Maria Rita Serrano, afirmou: "Estamos comprometidos com o ajuste fiscal e a aprovação das reformas. A incerteza só será superada com ações concretas".



