O governo brasileiro classificou como "inaceitável" e de motivação ideológica a decisão dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A informação foi divulgada nesta terça-feira (4) pelo Ministério das Relações Exteriores, que afirmou estar avaliando medidas recíprocas.
A revogação ocorreu na última sexta-feira (31) e foi comunicada oficialmente ao governo brasileiro na segunda-feira (3). Segundo o Itamaraty, não houve qualquer explicação formal por parte das autoridades americanas, o que reforça a avaliação de que a medida tem caráter político e ideológico.
Reação imediata do governo
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores expressou "profundo pesar" e "veemente repúdio" à decisão. O texto destaca que a embaixadora sempre atuou com "respeito às leis e normas internacionais" e que a medida "não encontra justificativa plausível".
O governo brasileiro também anunciou que convocará o encarregado de negócios dos EUA em Brasília para prestar esclarecimentos. Além disso, estuda a aplicação de "medidas recíprocas" caso a situação não seja revertida.
Segundo fontes do Planalto, a avaliação é de que a decisão americana está ligada à postura do governo brasileiro em relação à guerra na Ucrânia e à aproximação com Rússia e China. O Brasil tem se mantido neutro no conflito e defendido uma solução negociada, o que desagrada setores do governo americano.
Histórico de tensões
Esta não é a primeira vez que as relações entre Brasil e EUA passam por turbulências recentes. Em fevereiro, o presidente americano Joe Biden criticou publicamente a posição brasileira sobre a Ucrânia, classificando-a como "equivocada". Em maio, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, foi recebido a portas fechadas em Washington para tentar amenizar o atrito.
A revogação do visto de uma embaixadora é uma medida rara e considerada extrema nas relações diplomáticas. Especialistas consultados pelo Valor avaliam que a ação pode ter sido uma resposta à decisão do Brasil de aceitar a reabertura de uma base militar russa em território venezuelano, algo que os EUA veem com preocupação.
Impactos na relação bilateral
A medida deve afetar diretamente a agenda bilateral, incluindo negociações comerciais e cooperação em áreas como meio ambiente e energia. O Brasil é um dos principais parceiros comerciais dos EUA na América do Sul, com um fluxo de comércio que superou US$ 75 bilhões em 2025.
O governo brasileiro, no entanto, afirma que não pretende romper relações e que a prioridade é o diálogo. "Vamos buscar esclarecimentos e trabalhar para reverter essa decisão", disse uma fonte do Itamaraty. "Mas não aceitaremos pressões ou ingerências em nossa política externa soberana."
Na avaliação de analistas, a crise pode ter efeitos também no Congresso americano, onde há setores que defendem uma postura mais dura em relação ao Brasil. Por outro lado, a medida pode fortalecer o discurso do governo brasileiro de que está sendo alvo de perseguição política por sua posição independente.
Próximos passos
O Itamaraty informou que a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti permanecerá em Washington, mas com status reduzido. O governo estuda enviar um representante de nível ministerial para conversar com autoridades americanas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve se pronunciar sobre o caso ainda nesta semana.
Enquanto isso, o governo brasileiro avalia acionar instâncias internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), para denunciar a medida. A expectativa é de que o tema seja debatido na próxima Assembleia Geral da ONU, em setembro.
A revogação do visto ocorre em um momento delicado para a diplomacia brasileira, que busca ampliar sua presença global e mediar conflitos. A crise com os EUA pode complicar esses esforços, mas o governo afirma que não recuará de suas posições.



