Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira (4) a revogação do visto de um diplomata brasileiro de alto escalão. A medida, confirmada pelo Departamento de Estado, é uma resposta direta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada americana no Brasil. O nome do diplomata que teve o visto revogado não foi revelado.
O que significa a revogação do visto
Segundo o Departamento de Estado, a revogação do visto não implica a expulsão do diplomata. O representante brasileiro pode permanecer nos Estados Unidos, mas sem um visto válido. O órgão afirmou que o visto poderá ser restabelecido caso o governo brasileiro autorize a nomeação do novo embaixador americano.
A ação ocorre 10 dias após o Itamaraty negar vistos a dois diplomatas do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil: o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson. Ambos foram citados em reportagem do jornal The Washington Post como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Contexto da tensão diplomática
Um porta-voz do Departamento de Estado negou que os funcionários pretendiam interferir nas eleições. Segundo os EUA, a visita tinha como objetivo discutir "integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão" com autoridades brasileiras e representantes da sociedade civil.
Em 29 de julho, o blog da Andreia Sadi revelou que o governo brasileiro já esperava algum tipo de retaliação após a negativa dos vistos. Fontes do Itamaraty avaliavam uma reação no campo diplomático, com novas restrições de vistos, mas outras medidas também não eram descartadas. Uma hipótese considerada era o uso da Lei Magnitsky como instrumento adicional de pressão.
Lei Magnitsky e sanções
A Lei Magnitsky permite que os Estados Unidos imponham sanções a cidadãos estrangeiros acusados de violações graves de direitos humanos ou de corrupção em larga escala. O ministro Alexandre de Moraes já foi punido com base na Lei Magnitsky em julho do ano passado, mas acabou sendo removido da lista no fim de 2025, após negociações entre o governo brasileiro e a Casa Branca.
A relação entre Brasil e Estados Unidos começou a se deteriorar em julho do ano passado, quando o presidente Donald Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros importados pelos norte-americanos. Na época, Trump justificou o tarifaço pelo que chamou de "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Negociações e novos atritos
Nos meses seguintes, negociações entre o governo brasileiro e a Casa Branca ajudaram a reduzir as tensões. No fim de 2025, os Estados Unidos aliviaram as tarifas e retiraram algumas sanções contra autoridades brasileiras. Além disso, Lula e Trump se encontraram duas vezes. O presidente brasileiro visitou Washington em 7 de maio para se reunir com o líder americano, que chegou a elogiar o petista após os encontros.
No entanto, a relação entre os dois países voltou a se desgastar no fim de maio, quando os Estados Unidos classificaram as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A decisão foi anunciada dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, se reunir com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, nos Estados Unidos.
Novas tarifas e impactos
Semanas depois, os Estados Unidos anunciaram novas tarifas contra o Brasil. Em 22 de julho, entrou em vigor uma taxa de 25% como resultado de uma investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio. A medida foi anunciada após o governo Trump concluir que o Brasil adota práticas que "oneram ou restringem" o comércio com os EUA. Entre os exemplos citados estão o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais.
Dois dias depois, os EUA confirmaram outra tarifa, de 12,5%, contra o Brasil e dezenas de outros países. O governo americano alegou práticas comerciais desleais pela falta de combate ao trabalho forçado.



