O ditador nicaraguense Daniel Ortega declarou nesta segunda-feira que o país não realizará mais eleições, em um discurso televisionado que chocou a comunidade internacional. Ortega afirmou que o sistema eleitoral foi um 'fracasso' e que a partir de agora o poder será exercido por meio de 'assembleias populares' controladas pelo partido governista, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).
Declaração histórica e contexto político
Durante um evento em Manágua, Ortega, que está no poder desde 2007, disse que 'as eleições são uma farsa imposta pelo imperialismo' e que a Nicarágua seguirá um modelo de 'democracia direta'. A medida ocorre após anos de repressão a opositores, fechamento de veículos de imprensa independentes e prisão de líderes da oposição. Desde os protestos de 2018, que deixaram centenas de mortos, Ortega consolidou seu controle sobre o país.
Segundo analistas, a decisão de eliminar as eleições representa o fim de qualquer pretensão democrática na Nicarágua. 'Ortega está seguindo os passos de outros ditadores na região, como Nicolás Maduro, mas indo ainda mais longe ao abolir completamente o processo eleitoral', afirmou a cientista política María García, da Universidade Centro-Americana.
Reações internacionais e sanções
A comunidade internacional reagiu com indignação. Os Estados Unidos, por meio do porta-voz do Departamento de Estado, condenaram a declaração e prometeram novas sanções contra o governo nicaraguense. 'Este anúncio é uma violação flagrante dos princípios democráticos e dos direitos humanos', disse o porta-voz. A União Europeia também emitiu nota de repúdio, classificando a medida como 'um golpe contra a vontade do povo nicaraguense'.
Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, alertaram que a decisão pode agravar a crise humanitária no país, onde milhares de nicaraguenses já buscaram refúgio em nações vizinhas, como Costa Rica e Honduras. 'Ortega está fechando todas as portas para a democracia', declarou a diretora da Anistia para as Américas, Erika Guevara-Rosas.
Impacto interno e reação da oposição
Na Nicarágua, a oposição, que já opera na clandestinidade, classificou o anúncio como 'ilegal e ilegítimo'. O líder opositor exilado, Juan Sebastián Chamorro, disse em comunicado que 'Ortega não tem autoridade para cancelar eleições; a constituição não lhe dá esse poder'. A Conferência Episcopal Nicaraguense também se manifestou, pedindo que o governo respeite o direito do povo de escolher seus representantes.
Enquanto isso, nas ruas de Manágua, a população demonstra medo e incerteza. 'Não temos mais esperança. Ele vai nos manter presos para sempre', disse uma comerciante local, que preferiu não se identificar. O regime de Ortega já havia sido criticado por eleições consideradas fraudulentas, como a de 2021, quando ele foi reeleito para um quarto mandato consecutivo após prender todos os principais adversários.
Futuro incerto para a Nicarágua
Especialistas apontam que a abolição das eleições pode isolar ainda mais o país diplomaticamente e agravar a crise econômica. A Nicarágua já enfrenta inflação alta, escassez de alimentos e medicamentos, e dependência de ajuda internacional. 'Sem eleições, Ortega perde qualquer resquício de legitimidade, e a comunidade internacional terá que responder com medidas mais duras', avaliou o professor de relações internacionais Carlos Umaña, da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua.
A declaração de Ortega ocorre em meio a um cenário de crescente autoritarismo na América Latina, com governos na Venezuela, Cuba e agora Nicarágua eliminando mecanismos democráticos. A Organização dos Estados Americanos (OEA) deve convocar uma reunião de emergência para discutir a situação nicaraguense nos próximos dias.



