De garrafas devolvidas no supermercado a prédios construídos com materiais de outros edifícios, uma viagem para conhecer a economia circular na Noruega revela como empresas estão transformando resíduos em tecnologia, matéria-prima e novos modelos de negócio. A primeira parada poderia ser qualquer supermercado da Noruega, onde é comum encontrar pessoas chegando com grandes sacolas cheias de latas e garrafas vazias para descartá-las em máquinas instaladas próximas à entrada. Em poucos segundos, surge um comprovante que pode ser descontado nas compras, convertido em dinheiro ou até em doação para a Cruz Vermelha. Para quem vive no país, o gesto é tão habitual quanto passar os produtos no caixa. Mas por trás dessa rotina existe uma das histórias empresariais mais bem-sucedidas da Noruega.
TOMRA: a máquina que transformou a devolução de embalagens em negócio global
A máquina é parte de um sistema que conecta consumidores, supermercados, fabricantes de bebidas, empresas de logística, centros de processamento e tecnologia. Aquilo que poderia terminar no lixo preserva valor suficiente para retornar à cadeia produtiva. A TOMRA nasceu em 1972, quando os irmãos Petter e Tore Planke desenvolveram uma máquina capaz de reconhecer e receber automaticamente garrafas vazias. O primeiro equipamento foi instalado em um supermercado de Oslo naquele mesmo ano. O que começou como uma solução para facilitar a devolução de embalagens tornou-se uma empresa de tecnologia presente em mais de cem países. Hoje, a TOMRA trabalha com sistemas de coleta e separação de materiais utilizados não apenas em supermercados, mas também em reciclagem, alimentos e mineração. Em 2026, a companhia recebeu o Prêmio Norueguês de Exportação de 2025 pelo impacto internacional de suas tecnologias.
A Noruega possui aproximadamente 3.900 máquinas automáticas distribuídas em 3.500 pontos de coleta, além de milhares de locais que fazem a devolução manualmente. Os supermercados que vendem bebidas também participam do recebimento das embalagens, tornando a devolução conveniente para o consumidor. A recompensa financeira é suficiente para mudar o comportamento do consumidor. Ao mesmo tempo, as embalagens precisam seguir determinadas especificações para que possam ser identificadas, separadas e recicladas com qualidade.
Områ: separando plásticos misturados em dez categorias
Saindo de Oslo em direção a Holtskogen, a paisagem urbana gradualmente dá lugar às florestas e estradas tranquilas que cercam a capital. É ali, a aproximadamente 45 minutos da cidade, que começou a operar em novembro de 2025 a Områ, uma instalação criada pela TOMRA e pela Plastretur para enfrentar um dos grandes desafios da economia circular: o que fazer com diferentes tipos de plástico depois que eles são descartados. Em vez de uma única corrente de embalagens relativamente padronizadas, como acontece com garrafas e latas, o plástico chega misturado em diferentes formatos, cores e composições. A Områ utiliza sensores para dividir os resíduos em até dez categorias. A instalação tem capacidade para processar 90 mil toneladas por ano, incluindo embalagens que antes tinham como destino principal a incineração.
Essa pergunta interessa muito além das empresas de reciclagem. Ela envolve fabricantes de embalagens, alimentos, cosméticos, produtos de limpeza, redes de varejo, operadores logísticos e todas as marcas que colocam plástico no mercado. A instalação também mostra que pedir ao consumidor que separe melhor os resíduos não resolve tudo. É necessário criar infraestrutura, tecnologia, demanda pelo material reciclado e responsabilidade ao longo de toda a cadeia.
Prédio reutiliza 80% dos materiais e reduz emissões em 70%
De volta ao centro de Oslo, uma construção na Kristian Augusts gate apresenta a economia circular de uma forma menos óbvia. À primeira vista, o número 13 da rua parece apenas mais um edifício de escritórios integrado à arquitetura da capital. Mas parte de seus materiais teve uma vida anterior. Radiadores, estruturas, componentes internos e materiais trazidos de outros projetos foram incorporados à reforma do edifício da década de 1950. Aproximadamente 80% dos materiais foram reutilizados, contribuindo para uma redução estimada de 70% nas emissões relacionadas ao projeto. O prédio faz parte do FutureBuilt, um programa que utiliza projetos reais para testar novas soluções na construção e no desenvolvimento urbano.
O que torna o projeto interessante não é apenas o volume de materiais recuperados. A reutilização obrigou arquitetos, construtores e fornecedores a repensarem quase todas as etapas da obra. Foi necessário descobrir antecipadamente quais componentes estariam disponíveis, verificar sua qualidade, desmontá-los sem destruí-los, transportá-los, armazená-los e adaptá-los ao novo edifício. Nesse modelo, uma demolição deixa de ser apenas o fim de um prédio e pode se tornar uma fonte de portas, estruturas, janelas, tijolos, divisórias e equipamentos para outro projeto.
Hydrovolt: reciclagem de baterias de veículos elétricos
Aproximadamente uma hora ao sul de Oslo, a charmosa cidade de Fredrikstad abriga uma das respostas norueguesas a uma pergunta cada vez mais urgente: o que acontece com as baterias dos veículos elétricos quando elas chegam ao fim da vida útil? A adoção de carros elétricos criou um novo desafio. Substituir motores a combustão reduz determinadas emissões, mas aumenta a demanda por lítio, níquel, manganês, cobre, alumínio e outros materiais. A Hydrovolt iniciou operações comerciais em Fredrikstad com capacidade para processar aproximadamente 12 mil toneladas de baterias por ano. A empresa afirma conseguir recuperar mais de 90% dos materiais presentes nas baterias processadas.
Para empresas automotivas, de energia, armazenamento, mineração, logística e gestão de resíduos, a reciclagem de baterias não é apenas uma questão ambiental. É uma forma de reduzir desperdício, recuperar materiais críticos e diminuir a dependência de cadeias internacionais vulneráveis. Em 2026, a Hydrovolt anunciou novas parcerias relacionadas à reciclagem de baterias de veículos elétricos no mercado norueguês, mostrando como a circularidade depende da construção de uma rede que começa no proprietário do veículo e passa por fabricantes, oficinas, transportadores e recicladores.
Lições para empresas brasileiras
Uma viagem empresarial pela economia circular na Noruega pode interessar a organizações muito diferentes. Para uma empresa de bebidas ou varejo, o ponto de partida pode ser a logística reversa e a participação do consumidor. Para uma indústria de alimentos, cosméticos ou bens de consumo, pode ser o redesenho das embalagens e a responsabilidade sobre o que acontece depois da venda. Para uma construtora ou incorporadora, a discussão pode estar na reutilização de materiais, na reforma de edifícios existentes e na criação de valor residual. Para empresas automotivas, de energia e mineração, o interesse pode estar na recuperação de matérias-primas críticas. Para bancos e investidores, a pergunta pode ser quais modelos circulares conseguem gerar receita, reduzir risco ou proteger empresas contra a escassez de recursos.
A viagem não precisa oferecer a mesma resposta para todos. Sua função é aproximar cada grupo das empresas, dos especialistas e das experiências mais relevantes para o desafio que está tentando resolver. Uma imersão executiva precisa começar antes do embarque, com uma pergunta clara: Qual problema estratégico a organização pretende compreender melhor? Durante a viagem, o valor não está apenas em observar uma tecnologia. Está em descobrir por que determinada solução foi criada, como o modelo é financiado, quais parceiros precisaram colaborar, que obstáculos surgiram, o que ainda não funciona e quais elementos poderiam ser adaptados a outro mercado.



