O desemprego juvenil deixou de ser um problema localizado e passou a mobilizar diferentes países. No ano passado, manifestações no Quênia, Peru, Nepal, Indonésia e Filipinas foram impulsionadas pela falta de oportunidades. Em 2025, protestos na África do Sul e no Marrocos também refletem a crise, enquanto na Índia o movimento satírico Partido Cockroach Janta ganhou projeção nacional ao abordar o tema.
A situação na China e no Brasil
Na China, o desemprego juvenil atingiu 15,6% em maio entre jovens urbanos de 16 a 24 anos, segundo dados oficiais citados pela Reuters. Embora seja o menor nível em 11 meses, o índice é muito superior à taxa geral de desemprego do país, de cerca de 5%. Desde 2023, as estatísticas chinesas excluem milhões de estudantes universitários, dificultando comparações históricas. O avanço das matrículas no ensino superior superou a criação de empregos, agravando a ansiedade e o subemprego em meio à desaceleração econômica.
No Brasil, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos é de 13,8%, mais que o dobro da média nacional de 5,8%, conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Quase 20% dos brasileiros de 14 a 24 anos não estudam nem trabalham.
O papel da inteligência artificial
O avanço tecnológico, a desaceleração das contratações e o aumento da concorrência têm enfraquecido a relação entre diploma universitário e emprego estável. A inteligência artificial (IA) é apontada como potencial eliminadora de postos de entrada, mas especialistas divergem sobre seu impacto real.
Golo Henseke, professor da University College London, afirma: "No Reino Unido, as novas vagas para graduados caíram mais rapidamente do que as destinadas a pessoas sem formação universitária, e muitas dessas funções apresentam alta exposição à IA". Pesquisa conduzida por ele mostra que regiões com adoção mais rápida de IA tiveram crescimento mais lento do emprego entre jovens de 15 a 24 anos, enquanto trabalhadores em idade principal permaneceram estáveis. Ainda assim, Henseke avalia que o impacto da IA é pequeno comparado aos efeitos do ciclo econômico.
Sara Elder, especialista em emprego juvenil da Organização Internacional do Trabalho (OIT), concorda: "No momento, as economias não estão suficientemente dinâmicas, e a criação de vagas não acompanha o número de jovens que entram no mercado de trabalho". Ela destaca que empregadores elevam as exigências de contratação, dificultando a entrada de candidatos com pouca experiência.
Setores mais afetados e consequências
A OIT identificou aumento das taxas de desemprego juvenil em oito das 11 regiões do mundo entre 2023 e 2025, incluindo Leste Asiático, América do Norte e Sudeste Asiático. As maiores quedas de oportunidades ocorreram em manufatura, construção e serviços. Por outro lado, empregos técnicos altamente qualificados em ciência, engenharia, saúde e tecnologia da informação continuam em expansão.
As consequências incluem menor consumo, redução na compra de imóveis, adiamento da formação de famílias e aumento do endividamento e da frustração social.
Necessidade de investimentos e crescimento
Na Alemanha, pesquisa da consultoria EY mostrou que estudantes estão menos otimistas quanto a encontrar trabalho adequado após a graduação do que há dois anos, e a segurança no emprego superou o salário como critério principal. Elder defende investimentos públicos e privados na criação de empregos de qualidade e políticas de transição escola-trabalho.
Henseke é cauteloso ao atribuir o problema à qualificação: "É muito improvável que os graduados de hoje sejam menos capacitados do que os de alguns anos atrás". Para ele, "mais do que qualquer outra medida, o que realmente ajudaria seria um crescimento econômico mais forte". Ele ressalta que a Europa não enfrenta uma crise generalizada: a taxa de desemprego juvenil na União Europeia foi de 15,2% em maio, contra 5,9% geral, e a proporção de jovens que não estudam, não trabalham nem participam de programas de formação caiu no sul do continente, embora tenha aumentado em países como Áustria e Alemanha.



