Na vastidão das estepes da Mongólia, Hurts Gantumur, de apenas seis anos, galopa com a determinação de quem sonha em se tornar jóquei infantil no festival anual do Naadam. A tradição, que remonta a tempos imemoriais, envolve crianças montando cavalos em percursos que variam de 11 a 25 quilômetros, dependendo da idade do animal e da categoria da corrida. Apenas crianças entre 8 e 12 anos podem competir oficialmente, mas o treinamento começa cedo: por volta dos cinco anos, muitos pequenos já estão em cima de um cavalo.
Treinamento e preparação
O pai de Hurts, Gantumur, que criou cavalos para o Naadam por anos e supervisiona a formação do filho, explica a filosofia por trás do treinamento: “Durante o treinamento, criança e cavalo são apenas um. É assim que se pode ganhar”. A maioria das crianças rurais mongóis aprende a montar desde muito pequenas, e os aspirantes a jóqueis iniciam os treinos intensivos por volta dos cinco anos. Hurts, que ainda não atingiu a idade mínima legal de oito anos, já se prepara para seguir os passos do irmão mais velho, Zolboo, que, aos 14, já não pode mais competir por ter ultrapassado o limite de idade.
Críticas e riscos à saúde
A tradição, no entanto, não está isenta de controvérsias. Grupos de defesa dos direitos das crianças têm criticado a participação infantil no Naadam, apontando riscos de exploração e condições perigosas. Um relatório da Unicef, agência da ONU para a infância, indica que as crianças competem “em condições que prejudicam sua saúde e sua vida”. A ONG Their World complementa que, com frequência, os pequenos jóqueis “faltam à escola para se preparar para as corridas e trabalham longas horas por salários baixos em grandes criadouros de cavalos”.
Os números são alarmantes: em 2022, um menino jóquei morreu e outros nove ficaram gravemente feridos durante as corridas, de acordo com dados do governo mongol. Naquele ano, cerca de 3.200 crianças jóqueis participaram em 82 corridas. Em resposta, Ulan Bator elevou a idade mínima legal para oito anos, antes fixada em sete. No total, 46 crianças jóqueis morreram em corridas nos últimos dez anos, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Mongólia. As Nações Unidas continuam expressando preocupação, classificando o esporte como “um risco mortal para a vida e o bem-estar das crianças que são ou serão recrutadas como jóqueis”.
Valor cultural e honra familiar
Apesar das críticas, para muitas famílias mongóis as corridas de cavalos são uma tradição profundamente enraizada. Uma vitória no festival Naadam traz honra tanto para a família do vencedor quanto para sua província. As medalhas conquistadas ganham lugar de destaque nas casas. Enquanto Hurts monta seu cavalo na estepe, seus irmãos menores, os gêmeos de três anos Galt e Gerelt, aguardam ansiosamente sua vez de seguir o mesmo caminho.
O debate entre a preservação cultural e a proteção infantil continua, com o governo mongol tentando equilibrar a tradição com medidas de segurança, como o aumento da idade mínima. No entanto, para famílias como a de Hurts, a ligação com os cavalos e o Naadam é inabalável, e o ciclo de treinamento e competição persiste, geração após geração.



