O Brasil poderá enfrentar, a partir do segundo semestre de 2026, um dos episódios de El Niño mais intensos do registro climático recente. As previsões do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM 3.0), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam aquecimento excepcional das águas do Pacífico Equatorial até o final de 2026, com repercussões sobre chuvas, temperaturas e eventos extremos em diferentes regiões do País.
O que é o El Niño e como ele afeta o Brasil
O El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, que modifica a circulação atmosférica e altera padrões de chuva e temperatura no planeta. No Brasil, seus efeitos não são uniformes: algumas regiões enfrentam secas prolongadas e calor mais intenso, outras ficam mais expostas a chuvas excessivas, enchentes e deslizamentos.
Esta não é uma afirmação leviana. É o resultado de meses acompanhando a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, termômetro que a ciência usa há décadas para monitorar e prever o fenômeno. Em março, a anomalia ali era de +0,48°C; em meados de julho, já estava em +2,1°C. A velocidade desse aquecimento supera a observada nos dois episódios mais fortes já registrados desde 1877, os de 1997 e 2015, no mesmo período do ano.
Projeções indicam 'Super El Niño' sem precedentes
As simulações a partir das condições de junho de 2026 projetam que as anomalias na região Niño 3.4 poderão atingir entre 3,1°C e 4,3°C, entre novembro e dezembro. Para comparação, os fortes eventos de 1997 e 2015 registraram picos de 2,5°C a 2,6°C. O limiar mundial para um evento “muito forte” é de +2,0°C – já ultrapassado em meados de julho. Caso a previsão se confirme, teremos um “Super El Niño”, sem precedente no período moderno de observações.
Este diagnóstico não é solitário: o modelo europeu (ECMWF), o americano (Noaa) e o australiano (Bom) convergem para o mesmo cenário de alto impacto. A Organização Meteorológica Mundial estima 80% de probabilidade do El Niño estar estabelecido entre junho e agosto, com mais de 90% de chance de persistência até novembro, enquanto o CPC/Noaa estima em com mais de 97% a probabilidade de que o corrente El Niño persista até o início de 2027.
Oceanos globais aquecidos amplificam riscos
Contudo, a atenção não deve se concentrar somente no Pacífico: os oceanos globais também estão registrando temperaturas médias muito elevadas, sem precedente histórico, combinação que pode ampliar impactos climáticos – como ocorrido em 2024; um sinal de alerta para governos, empresas e sociedade.
O que isso significa para quem vive no Brasil? A Região Norte, especialmente a Amazônia, deve enfrentar chuvas abaixo da média a partir de setembro, até maio de 2027 – padrão semelhante ao da seca histórica de 2024, mas com intensidade projetada ainda maior: rios em níveis mínimos, comunidades ribeirinhas isoladas, incêndios florestais e pressão sobre hidrelétricas e agricultura.
Impactos regionais: seca no Norte, chuvas no Sul
Em sentido oposto, Sul e parte do Sudeste têm maior probabilidade de chuvas acima da média, sobretudo na primavera e no verão, com risco elevado de enchentes, deslizamentos e prejuízos à infraestrutura e à agricultura.
Há um terceiro elemento, talvez o mais silencioso e perigoso: anomalias positivas de temperatura do ar em quase todo o território nacional pelos próximos 12 meses, mais fortes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Calor acima da média combinado com chuva escassa é receita para a ocorrência de queimadas de grande porte, a exemplo do ocorrido no Pantanal em 2024, estresse hídrico com quebra de safras e consequentes perdas bilionárias na agricultura, além dos riscos à saúde – sobretudo com o aumento de mortes entre idosos em ondas de calor.
Previsões são probabilidades, mas ação é necessária
Contudo, previsões climáticas são probabilidades, não sentenças definitivas, e serão atualizadas mensalmente. Mas esperar que cada desastre confirme a previsão antes de agir seria uma irresponsabilidade: a ciência brasileira já oferece informações suficientes para que medidas preventivas sejam tomadas.
É necessário antecipar planos de contingência, revisar a operação de reservatórios, preparar sistemas de saúde para ondas de calor, reforçar a defesa civil, proteger populações em áreas de risco e planejar ações contra incêndios e secas. O setor agrícola precisa considerar cenários regionais de água, enquanto municípios do Sul e Sudeste devem reforçar drenagem urbana e monitoramento de encostas. Mas, antes de tudo, é preciso nos prepararmos para o longo prazo, com a arborização das cidades, regeneração de áreas degradadas no campo, ampliação das matas ciliares nos cursos d’água; dado que o presente “Super El Niño” é somente o primeiro de uma sequência de eventos que se repetirão com intensidade e frequência ampliadas, num planeta a cada ano mais aquecido globalmente.
Desafio: transformar previsão em decisão pública
O Brasil tem instituições científicas, capacidade de modelagem climática e profissionais qualificados para acompanhar esse fenômeno. O desafio é transformar previsão em decisão pública: extremos climáticos viram tragédias maiores quando encontram cidades despreparadas e respostas tardias.
O El Niño de 2026 poderá ser um teste severo para o País. A preparação deve começar agora – não quando os rios secarem, as temperaturas baterem recordes ou as chuvas já tiverem provocado perdas humanas.



