Cuba restaura energia após 6º apagão, mas cortes persistem
Cuba restaura energia após 6º apagão, mas cortes persistem

O sistema elétrico cubano começou a ser restaurado nesta quarta-feira, após o sexto apagão nacional em menos de um ano, mas a população ainda enfrenta cortes diários de energia que tornam a rotina insustentável. "O que estamos vivendo não é vida", afirmou uma moradora de Havana à agência AFP, sob condição de anonimato, enquanto técnicos trabalhavam para religar as unidades geradoras.

Sexto colapso expõe fragilidade do sistema

O novo colapso ocorreu na noite de terça-feira, quando uma falha na subestação de Chávez, na província de Matanzas, derrubou todo o Sistema Elétrico Nacional (SEN). Foi o sexto apagão geral desde o início da crise, que se agravou nos últimos meses. Segundo a União Elétrica (UNE), a restauração começou pelas regiões prioritárias, como hospitais e sistemas de bombeamento de água, mas a normalização total deve levar dias.

A crise energética cubana é a pior das últimas três décadas. A geração termelétrica opera com menos de 40% da capacidade instalada, e as usinas antigas, muitas com mais de 40 anos, sofrem com falta de manutenção e combustível. Dados oficiais indicam que o déficit de geração chega a 1.200 megawatts, o que obriga a cortes programados de até 12 horas diárias em várias províncias.

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Governo culpa bloqueio americano

O governo de Miguel Díaz-Canel atribui a crise ao "bloqueio econômico, comercial e financeiro" imposto pelos Estados Unidos, que dificulta a compra de combustível e peças de reposição. Em pronunciamento na TV estatal, o ministro da Energia e Minas, Vicente de la O Levy, afirmou que "o bloqueio é a causa estrutural do colapso", e que as sanções americanas impedem a importação de diesel e óleo combustível de fornecedores internacionais.

Washington, por sua vez, rejeita a acusação e aponta a má gestão do regime cubano. O porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, disse que "a crise energética é resultado de décadas de incompetência e falta de investimento", e que os EUA mantêm exceções humanitárias para envio de ajuda. A tensão aumentou após o anúncio de novas sanções contra navios que transportam petróleo venezuelano para Cuba.

Impacto na população e na economia

Os apagões afetam todos os setores da sociedade. Escolas e indústrias reduzem o horário de funcionamento, e a conservação de alimentos é um desafio diário. Em Havana, filas em postos de combustível se estendem por quarteirões, e o transporte público opera de forma precária. A economia, que já sofria com a escassez de alimentos e medicamentos, encolheu 2% no primeiro semestre, segundo a CEPAL, e a inflação anual ultrapassa 30%.

"A situação é insustentável", disse à AFP o economista cubano Omar Everleny, da Universidade de Havana. "Sem uma reforma estrutural e investimento estrangeiro, a crise vai se aprofundar. O governo precisa diversificar as fontes de energia, especialmente as renováveis, que hoje representam menos de 5% da matriz."

Protestos e pressão social

Os cortes têm gerado protestos espontâneos em bairros de várias cidades, com moradores batendo panelas e bloqueando ruas. Em Santiago de Cuba, na segunda-feira, manifestantes gritaram "Luz, não escuridão" diante de um posto policial. A polícia dispersou os grupos sem confrontos, mas a tensão social é crescente. O governo anunciou um pacote de medidas para aliviar a crise, incluindo a instalação de geradores a diesel em hospitais e a aceleração de projetos solares, mas especialistas duvidam de resultados a curto prazo.

"O que estamos vivendo não é vida", repetiu a moradora de Havana, resumindo o sentimento de milhões de cubanos que enfrentam mais um verão de escuridão e calor, sem perspectivas de melhora imediata.

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