A Quimbanda, prática de matriz africana que busca a cura espiritual, ganhou destaque após a construção de uma estátua de 11 metros em homenagem ao Diabo na Taíba, em São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Fortaleza. O monumento, erguido pela feiticeira Mãe Rainha das Trevas no templo Palácio Estrela Negra, reacendeu o debate sobre essa prática pouco compreendida.
O que é a Quimbanda?
De acordo com o tata Roberto Leão, praticante de Quimbanda há três anos e pai de santo na Umbanda há 20, a Quimbanda não é uma religião, mas uma prática que pode ser adotada por pessoas de qualquer fé. “A Quimbanda é uma prática magística, inclusive agrega todas as religiões. Então, ela é uma prática diaspórica, ela tem a sua origem realmente em matriz africana, mas com muita influência também dos povos originários, e influência também da magia cerimonial europeia”, explicou.
O termo “quimbanda” deriva do grupo etnolinguístico Banto, da África subsaariana, onde “kimbanda” significa curador. Na prática, cultuam-se entidades como exus e pombagiras, que atuam como intermediários entre o mundo espiritual e o material.
Ritos e fundamentos
Diferentemente de religiões com livros sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão, os fundamentos da Quimbanda são transmitidos oralmente. Não há um manual único, o que resulta em variações entre os praticantes. “É um processo de você buscar, sem negar as suas sombras, entender quem você é por inteiro, compreender esse mergulho quase psicanalítico para dentro de você, entender quais são os seus desejos, ter consciência de quem você é por inteiro e decidir, ter a liberdade do que vale a pena você realizar ou não. Então, isso é um processo individual”, detalhou o tata.
Para Leão, o tempo não é linear, e ao acessar os exus e pombagiras, o praticante conecta-se com sua própria ancestralidade. “Na minha compreensão particular, o que chamamos [de Quimbanda] é um culto ao morto, então é necromante, a gente cultua os nossos exus e pombagiras, que são os personagens principais da nossa Quimbanda”, reforçou.
Cura espiritual e reencarnação
Alguns adeptos buscam na Quimbanda a cura espiritual para cessar o ciclo de reencarnações, visto como um “castigo”. Ao atingir a plenitude, a pessoa se tornaria um exu ou pombagira. “Não é uma prática do mal. É uma prática de se curar. É uma prática de cultuar a sua ancestralidade, honrar a si mesmo, se compreender como inteiro e ser uma pessoa mais completa”, complementou Leão.
Estátua do Diabo e repercussão
A estátua, inaugurada em 25 de julho, foi construída em propriedade privada da feiticeira Mãe Rainha das Trevas, líder religiosa há quase 30 anos. Ela investiu mais de R$ 100 mil no projeto, que contou com engenheiro civil. A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante afirmou que a obra é regular, com Licença Ambiental e Alvará de Construção concedidos conforme a legislação, após autorização do Governo do Estado, devido à localização na APA das Dunas do Litoral Oeste.
A iniciativa gerou polêmica, mas também defesa da liberdade religiosa. A prática da Quimbanda, embora estigmatizada, busca a cura e o autoconhecimento, conforme explicam seus adeptos.



