O Mercado Municipal de São Paulo, conhecido como Mercadão, tem seus clássicos imutáveis: sanduíche de mortadela, pastel de bacalhau e frutas cristalizadas. Mas o chef André Boratto, campeão mundial de churrasco em 2025 e ex-participante do MasterChef Brasil, resolveu desafiar essa tradição. Na primeira quinzena de agosto, ele inaugura um quiosque dedicado exclusivamente à 'aranha de camarão' – um corte pouco conhecido do crustáceo, empanado e frito, que ele acredita poder se tornar o novo prato-símbolo da cidade.
Um clássico em construção
Criar um ícone não é simples. Boratto reconhece que a mortadela não perderá espaço: “Eu brinco que eu não estou concorrendo, eu estou trazendo um produto a mais. Ninguém vai deixar de comer o sanduíche de mortadela para comer a aranha de camarão”, afirma. A estratégia é se posicionar como um adicional, não como concorrente, enquanto avalia a aceitação do público.
O nome do prato já é um atrativo. 'Aranha de camarão' é o apelido para a parte do crustáceo que inclui as patas, temperada com uma mistura de mais de 12 especiarias, empanada e frita até ficar crocante. O formato, com as patinhas expostas, lembra uma aranha – e essa estranheza é justamente o que Boratto espera converter em curiosidade e, depois, em hábito.
Origem familiar e influências internacionais
A receita nasceu de uma memória afetiva. O pai de Boratto, ex-integrante da aeronáutica, sofreu um acidente de helicóptero em alto-mar antes do nascimento do chef. Foi resgatado por dois barcos camaroeiros, e da amizade com os pescadores surgiu o hábito de receber camarão em casa. Foi assim que Boratto experimentou pela primeira vez o prato dos barqueiros – um preparo simples, de pescador, sem pretensão de se tornar ícone urbano.
Anos depois, viagens à Austrália e aos Estados Unidos o levaram a versões semelhantes. Boratto adaptou o tempero ao paladar brasileiro e chegou à receita atual. “A cadeia está toda formada sem eu precisar de muita logística. É o que vai fazer também com que a gente consiga colocar o produto em um preço muito acessível”, explica o chef.
Estratégia de localização e operação enxuta
A escolha do Mercadão não foi aleatória. Boratto optou pelo local por dois motivos: o fluxo constante de turistas e a proximidade das peixarias, que garantem camarão fresco diariamente sem necessidade de uma cadeia de suprimentos própria. Para atender a uma eventual demanda maior, já negocia com a Ceagesp um reforço no abastecimento.
O quiosque será minimalista: apenas a aranha de camarão no cardápio, sem variações. “Eu queria ter um produto que fosse protagonista. Então eu não queria vender nada além da aranha”, diz Boratto, que pretende aguardar a reação do público antes de pensar em novos endereços ou franquias.
O futuro do novo ícone
Resta saber se a aposta vingará. Boratto imagina um cenário em que a lógica se inverta: visitantes indo ao Mercadão em busca da aranha e, depois, descobrindo os clássicos tradicionais. “Quem sabe um dia as pessoas possam ir ao Mercadão em busca da aranha, e depois de comer a aranha falam assim: vou provar também o sanduíche de mortadela”, conclui.
O tempo e o boca a boca dos frequentadores dirão se a aranha de camarão se tornará mais um ícone do Mercadão ou apenas uma moda passageira. Por enquanto, a aposta é de um chef que já provou seu talento nas churrasqueiras e agora busca conquistar um novo território: o paladar dos paulistanos.



