Uma nova pesquisa sobre a preferência de clubes no Brasil trouxe um dado que surpreendeu analistas e dirigentes: o contingente de pessoas que afirmam não ter time é tão grande quanto o de torcedores do Flamengo. A informação, divulgada neste domingo, coloca em perspectiva a transformação do consumo de futebol no país e reacende o debate sobre a relação entre o torcedor e as agremiações.
De acordo com o levantamento, que ouviu brasileiros de todas as regiões, o grupo declarado como "sem torcida" alcançou numericamente o mesmo patamar do clube de maior torcida do país. O empate técnico é histórico e reflete mudanças comportamentais que vêm se acelerando, especialmente entre as gerações mais jovens. O estudo não utiliza margem de erro superior a dois pontos percentuais, o que torna o resultado estatisticamente relevante.
Aumento do desinteresse pelo futebol tradicional
Especialistas ouvidos para a análise apontam que o crescimento dos "sem torcida" está ligado a uma série de fatores, como a multiplicidade de opções de entretenimento, a internacionalização das transmissões esportivas e a sensação de distanciamento entre o torcedor e os grandes clubes. A pesquisa mostra que, entre os entrevistados com idade entre 18 e 24 anos, o percentual de pessoas sem clube é ainda mais expressivo, superando a média nacional.
Outro fator indicado é a migração do interesse para ligas estrangeiras, principalmente a Premier League e a Liga dos Campeões. Muitos jovens acompanham times europeus com mais afinco do que times locais. A facilidade de acesso a jogos de diferentes países via streaming reduziu a exposição exclusiva ao futebol brasileiro, que historicamente formou torcidas por proximidade afetiva e familiar.
O impacto da gestão e da violência nos estádios
O levantamento também sugere que a violência e a má gestão dos clubes afastam potenciais torcedores. A imagem de brigas entre organizadas, a falta de segurança nos arredores dos estádios e os recorrentes casos de corrupção dirigem uma parcela significativa do público para longe das arquibancadas. Nesse cenário, muitos preferem acompanhar o futebol apenas pela televisão ou nem isso.
A pesquisa indica que o fenômeno não é homogêneo. No Nordeste, por exemplo, a quantidade de "sem torcida" é menor do que no Sudeste e no Sul, onde a presença de múltiplos clubes tradicionais cria uma concorrência acirrada que, paradoxalmente, pode gerar um efeito contrário de rejeição generalizada. Já nas capitais, o número de indiferentes é maior do que no interior, possivelmente pela influência de hábitos culturais urbanos.
Marketing esportivo e novos formatos de engajamento
Para os departamentos de marketing, o dado acende um alerta. Se o número de pessoas sem time já é comparável ao de torcedores do Flamengo, as estratégias tradicionais de captação de novos fãs precisam ser repensadas. As ações de base, como escolinhas de futebol e parcerias com clubes de bairro, voltam a ganhar importância.
Em contrapartida, as plataformas digitais surgem como um canal eficaz para atrair esse público flutuante. Conteúdos de bastidores, jogos de fantasia e experiências interativas aparecem como formas de engajar quem não possui vínculo afetivo com nenhum clube. A pesquisa mostra que 60% dos "sem torcida" consomem futebol de maneira fluida, acompanhando partidas importantes sem um time definido.
O que a igualdade com o Flamengo significa
O Flamengo, tradicionalmente, liderou todas as pesquisas de torcida desde os anos 1980. Ver seu percentual empatado com o grupo de pessoas que não torcem para ninguém é um marco simbólico. Para os rubro-negros, o resultado é encarado com naturalidade por parte da diretoria, que reconhece a necessidade de modernizar a relação com as novas gerações.
Já para os analistas, a equiparação não significa que o Flamengo perdeu torcedores, mas sim que a fatia de indiferentes cresceu a ponto de se tornar um segmento tão grande quanto o maior clube do país. Essa nova realidade deve influenciar produtos e serviços ligados ao esporte, desde o licenciamento de produtos até a negociação de cotas de televisão, pois as emissoras e patrocinadores também monitoram esses índices.
O estudo ressalta, no entanto, que a maioria dos brasileiros ainda declara torcer para algum clube. O futebol permanece como uma das grandes paixões nacionais, mas a forma de vivenciá-lo passa por uma transformação silenciosa. A compreensão desses novos hábitos será essencial para clubes, federações e empresas que desejam se manter relevantes nas próximas décadas.



