Em São Paulo, o piano tornou-se novamente um personagem central nos bares de alta coquetelaria. A cena que parecia adormecida ganha novas casas, iniciativas e experimentos, enquanto endereços tradicionais seguem firmes na missão de manter viva a atmosfera dos antigos piano-bares.
Uma história que vem dos saloons e dos speakeasies
O elo entre piano e bares é antigo. Nos saloons do Velho Oeste, o instrumento já marcava presença, como sugerem incontáveis produções de Hollywood. Durante a Lei Seca americana, nos anos 1920, os speakeasies – bares clandestinos – ajudaram a popularizar o piano-bar, também porque a música acústica e contida evitava chamar a atenção das autoridades. Na década seguinte, o piano migrou para os grandes hotéis e converteu-se em símbolo de luxo: o Bemelmans Bar, no The Carlyle, em Nova York; o American Bar, no The Savoy, em Londres – um dos lugares mais importantes para a coquetelaria mundial –; e o New York Bar, no Park Hyatt Tokyo, eternizado no filme Encontros e Desencontros.
Coda e Picco: o piano no centro da nova coquetelaria paulistana
Com menos de um ano de vida, o Coda, na Vila Buarque, marcou a volta de Alê D’Agostino como sócio e protagonista. O bar já é conhecido por servir um dos melhores dry martinis de São Paulo, mas o piano também virou uma de suas marcas. Às terças-feiras, a casa recebe pianistas e cantores, e a iniciativa faz tanto sucesso que deve ganhar mais noites. D’Agostino resume a importância: “O piano sempre foi o pilar central do bar. Na primeira conversa com os sócios, existiam dois elementos que eram fundamentais: um balcão bonito e um piano. Costumo falar que construímos um bar em volta do piano”.
Já o Picco, em Pinheiros, tem uma relação mais longa com o instrumento. Lula Mascella, diretor criativo e fundador, lembra que a ideia de unir coquetelaria e jazz nasceu antes da abertura, em 2015. “Quando surgiu a ideia de abrir o Picco lá em 2015, eu e o DJ EB já falamos da combinação entre coquetelaria e música, especialmente o jazz ao vivo. O piano foi praticamente uma das primeiras compras que fizemos para a casa. Desde o começo, entendíamos que a música não seria apenas um complemento, mas parte fundamental da experiência”, afirma. Segundo ele, o piano virou um personagem do bar, tocado semanalmente por pianistas convidados. Em 2021, esse vínculo rendeu ainda o Selo Vitrine, dedicado a registrar o trabalho autoral de músicos da casa: “O piano representa um pouco disso: ele cria uma atmosfera, aproxima as pessoas e estabelece uma conexão muito orgânica”.
Whiplash e Caso Bar: entre a tradição e a experimentação
No Jardins, o Whiplash Bar trata o piano como protagonista. O instrumento fica no mezanino e é acionado todas as sextas e sábados depois da meia-noite, em apresentações no formato piano e voz. O ambiente valoriza tanto a música quanto os drinques, numa combinação que atrai um público fiel.
No Baixo Pinheiros, o Caso Bar fez uma aposta temporária: alugou um piano por três meses no primeiro semestre. Anderson Passianoto, sócio do bar, conta que a experiência foi um sucesso. “Foi superlegal. Teve dias em que a gente teve até o acompanhamento de um trompetista. Mas, melhor do que isso, os clientes que sabiam tocar piano podiam assumir o instrumento. Quando isso acontecia, era incrível”, diz. O bar agora planeja comprar seu próprio piano e organizar uma programação fixa com músicos, além de deixar o instrumento à disposição dos clientes.
Baretto e Terraço Itália: as instituições que preservam o piano-bar
Duas casas tradicionais de São Paulo seguem com o piano como pilar. No Hotel Fasano, o Baretto é um dos mais aclamados piano-bares do país, com uma banda da casa de segunda a sábado. Walter Lima, o Bolinha, chefe de bar, afirma: “No Baretto, o piano é fundamental, tudo acontece em torno da música. De segunda a sábado, temos a nossa banda da casa com músicos e artistas que apresentam clássicos do jazz e da bossa nova”. Ele completa: “Coquetelaria e piano é uma combinação que funciona de forma muito natural. São complementares. Enquanto a banda apresenta clássicos da música, sejam elas instrumentais ou com as nossas cantoras, preparamos também os drinques clássicos, como o Dry Martini, Negroni ou Cosmopolitan”.
No Terraço Itália, no 41º andar do Edifício Itália, a estrela é um piano de cauda August Förster, marca alemã de prestígio mundial. De acordo com o bar, a fabricante produz apenas cerca de 110 a 120 pianos de cauda por ano, todos feitos à mão por mestres artesãos ao longo de meses. O modelo era o preferido de compositores como Richard Strauss e Giacomo Puccini. Bruno Pegorer, gerente-geral do Terraço Itália, destaca: “Trata-se de uma peça emblemática que atravessa gerações. Mais do que um elemento decorativo, o instrumento ocupa um papel central na experiência do espaço. A música ao vivo traz elegância e personalidade ao ambiente. Sua presença reforça a tradição, a história e a identidade do Bar do Terraço, conectando o passado do espaço à experiência oferecida aos visitantes até hoje”.
Onde experimentar essa atmosfera em São Paulo
Para quem quiser conferir essa atmosfera, os endereços são:
- Coda – Rua Barão de Tatuí, 233, Vila Buarque
- Picco – Rua Lisboa, 294, Pinheiros
- Whiplash – Rua Dr. Melo Alves, 74, Jardins
- Caso Bar – Rua Marcos Azevedo, 66, Pinheiros
- Baretto – Rua Vitório Fasano, 88, dentro do Hotel Fasano
- Bar do Terraço Itália – Av. Ipiranga, 344, 41º andar, República
E, para quem aprecia um bom dry martini, a boa notícia é que a frase “Play it again, Sam” – que, ironicamente, nunca foi dita por ninguém em Casablanca – segue ecoando pelos bares de São Paulo, sempre ao som de um piano.



