A crise na Ponte Preta atingiu um novo patamar após a sexta derrota consecutiva na Série B, desta vez para o Criciúma por 2 a 1, no Majestoso. O meia Elvis, camisa 10 do clube, fez um forte desabafo que vai além do resultado negativo, escancarando atrasos salariais, desgaste com a diretoria e uma pressão insustentável. “O que estão fazendo com a Ponte não existe”, disparou Elvis, em declaração que sintetiza uma crise que se arrasta há meses e impacta diretamente o desempenho dentro de campo.
Atrasos salariais e promessas não cumpridas
O principal ponto de tensão entre elenco e diretoria é financeiro. Os atrasos salariais são recorrentes desde 2025 e seguem como problema central na atual temporada. Em junho, jogadores chegaram a se manifestar publicamente, afirmando que alguns atletas não haviam recebido sequer um mês em 2026. Após a repercussão, a diretoria efetuou o pagamento referente a janeiro, mas o restante das pendências permanece em aberto.
A situação do próprio Elvis é um retrato claro do cenário. O meia entrou na Justiça contra o clube no fim de janeiro, cobrando cerca de R$ 8 milhões. Para seguir atuando, aceitou um acordo na casa de R$ 750 mil — que não vem sendo cumprido. No desabafo após o jogo contra o Criciúma, afirmou ter recebido apenas um salário desde então.
Desgaste antigo e relação com a diretoria no limite
A indignação não é inédita. Ainda durante o Paulistão, Elvis já havia adotado tom semelhante ao criticar a condução do clube, classificando como “vergonha” a situação vivida pela Ponte após jogo contra o Velo Clube. Internamente, o posicionamento do meia ganha peso por sua trajetória recente. Desde 2022 no Majestoso, ele passou por diferentes momentos e, em determinado período, chegou a destacar a boa relação com Marco Antonio Eberlin, presidente até o fim de 2025 e hoje vice-presidente e diretor de futebol.
Desta vez, o alvo foi direto: Elvis direcionou as cobranças à atual gestão e, principalmente, à ausência de comunicação com o grupo. Sem citar nominalmente o presidente Luiz Torrano — tratado apenas como “novo presidente”, o meia reclamou do distanciamento da diretoria, cobrando presença no dia a dia do elenco. A percepção interna é de que há um vácuo de liderança. Embora Torrano esteja à frente institucionalmente desde a virada de 2025 para 2026, Eberlin lidera o grupo político — o que contribui para o aumento da cobrança e da rejeição ao atual presidente.
Saídas por atacado e transferban
O ambiente instável já causa uma debandada no elenco. Recentemente, a Ponte perdeu jogadores importantes, como o goleiro Diogo Silva e o atacante Pottker, titulares que acionaram o clube na Justiça. Também deixaram o Majestoso o volante Tárik e o atacante Luis Phelipe. O lateral-direito Thalys notificou o clube e afirmou que só volta a atuar após a quitação das pendências. A tendência, diante do cenário, é de novas saídas em breve.
Mesmo com dificuldades financeiras, a Ponte chegou a anunciar um pacote de reforços recentemente. O problema é que o clube está impedido de registrar novos jogadores. Atualmente, a equipe enfrenta transferbans ativos tanto na CNRD quanto na Fifa, consequência de dívidas não quitadas. A situação expõe uma contradição que também foi alvo de questionamento no desabafo de Elvis: a chegada de reforços sem a regularização das pendências com o elenco atual.
Consequências institucionais e crise na base
Os atrasos salariais também geraram consequências institucionais. A Ponte foi excluída do Programa de Apoio à Reestruturação Financeira de Clubes da Série B (PARF-B) após descumprir o acordo de manter salários em dia. Além de perder o benefício — que ajudava a custear viagens —, o clube ainda terá que ressarcir valores já pagos pela CBF dentro do programa desde o início da competição.
O cenário turbulento extrapola o futebol profissional. Durante a última semana, os responsáveis pelas categorias de base pediram desligamento coletivo. Deixaram seus cargos os co-diretores Francisco Marques, o Kiko (sub-20), Alexandre Garutti (sub-17) e Rafael Mendes (sub-15). Em comunicado, Garutti afirmou que a decisão foi motivada por fatores que impediam a realização de um trabalho “condizente com a força e tradição” do clube.
Reflexos em campo: sexta derrota consecutiva
Dentro de campo, o reflexo é evidente. A derrota para o Criciúma, no último lance, foi a sexta consecutiva da equipe — a 10ª em 11 rodadas sem vencer. Com apenas oito pontos em 17 jogos, a Ponte ocupa a vice-lanterna da Série B e caminha a passos largos para mais um rebaixamento na temporada — já caiu no Paulistão. É nesse contexto que o desabafo de Elvis ganha dimensão maior. Mais do que a reação a um resultado, ele expõe uma sequência de fatores que, somados, mostram por que o clube vive uma das fases mais delicadas da sua história de 125 anos.



