O que hoje é um dos principais cartões-postais do Espírito Santo, as dunas de Itaúnas, em Conceição da Barra, escondem sob a areia uma antiga vila que foi completamente soterrada ao longo de décadas. A comunidade, que chegou a ter casas, igreja, escola, padaria, cemitério e centenas de moradores, foi engolida lentamente pela areia até que os últimos habitantes deixaram o local no início da década de 1970.
Desmatamento causou avanço das dunas
Segundo Tarciley Gonçalves de São José, técnico em meio ambiente do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), o principal motivo do soterramento foi o desmatamento da vegetação de restinga, que tem a função de estabilizar a areia. "Quando essa vegetação foi retirada, o vento passou a transportar os sedimentos em direção à vila", explicou. A educadora ambiental e pesquisadora Veratriz Souto Campos, natural de Itaúnas, conta que o processo foi gradual e durou cerca de 40 anos. "As pessoas retiravam um pouco da vegetação para fazer lenha, limpar um terreno ou realizar festas. Quando perceberam, já tinham retirado praticamente toda a cobertura vegetal", afirmou.
Dunas de 30 metros escondem história milenar
Atualmente, as dunas ultrapassam 30 metros de altura e cobrem quase todos os vestígios da antiga vila. Debaixo da areia, porém, há também sítios arqueológicos com mais de três mil anos de história. Veratriz desenvolve pesquisas no Parque Estadual de Itaúnas e explica que, dos 23 sítios arqueológicos identificados na unidade, 16 têm origem indígena. "A arqueologia conta para nós períodos de mais de três mil anos atrás. Entre os materiais encontrados estão pedras lascadas, cerâmicas indígenas e outros artefatos", ressaltou. Em 1992, o parque foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.
Nova vila e turismo em crescimento
Com o avanço da areia, muitas famílias reconstruíram suas vidas na margem sul do Rio Itaúnas, onde hoje está a atual Vila de Itaúnas, com cerca de 2 mil moradores. O local recebe aproximadamente 100 mil visitantes por ano, atraídos pelas dunas, praias e pelo tradicional forró pé de serra. O Parque Estadual de Itaúnas, criado em 1991, abriga praias, manguezais, restingas, lagoas e mais de 25 quilômetros de litoral preservado. Em dias de grande movimento, mais de 5 mil pessoas podem passar pelo parque.
Festival de Forró movimenta a região
Destaque para o Festival Nacional de Forró de Itaúnas (Fenfit), que em 2026 chega à 24ª edição, entre 18 e 25 de julho. A programação inclui shows de Mestre Ambrósio, Maritoots, Trio Juazeiro, entre outros, além de concurso de música, dança, workshops e matinês. Os ingressos avulsos custam entre R$ 80 e R$ 100, e o passaporte completo sai por R$ 420.
Monitoramento e conservação
A movimentação das dunas continua sendo monitorada pelo Iema. Em 2014, foi realizado plantio de espécies nativas de restinga para estabilizar a areia. Segundo Tarciley, "hoje é uma situação mais controlada. A vegetação conseguiu conter boa parte dessa areia". O parque oferece entrada gratuita e está aberto diariamente das 8h às 17h. Visitantes são orientados a não retirar plantas, objetos ou materiais arqueológicos, e a não utilizar drones sem autorização.



