As taxas dos títulos do Tesouro IPCA+ registraram alta expressiva nesta quinta-feira (30), impulsionadas pela decisão do banco central dos Estados Unidos de manter os juros americanos na faixa entre 3,50% e 3,75%. O papel com vencimento em 2050 atingiu sua maior taxa desde que começou a ser emitido, em fevereiro do ano passado: 7,56%. O Tesouro IPCA+ 2040 passou a pagar IPCA + 7,83%, contra IPCA + 7,78% no fechamento de quarta-feira (29).
Movimento generalizado nos títulos indexados à inflação
O avanço se repetiu em todos os vencimentos indexados à inflação. O Tesouro IPCA+ 2032 subiu de 8,26% para 8,27%; o 2037, de 8,02% para 8,06%; e o 2060, o mais longo da prateleira, saltou de 7,59% para 7,65% – a maior alta entre as NTN-Bs. Segundo analistas, a elevação reflete uma maior demanda por prêmio real em um cenário de juros globais ainda elevados.
Prefixados seguem trajetória oposta
Enquanto os títulos indexados sobem, os prefixados caminham na direção contrária. O Tesouro Prefixado 2029 recuou de 14,25% para 14,15%; o 2032 cedeu de 14,64% para 14,56%; e o Prefixado com Juros Semestrais 2037 caiu de 14,74% para 14,71%. A leitura combinada dos dois movimentos indica que o mercado passou a exigir mais prêmio real ao mesmo tempo em que reduziu a inflação embutida nos preços. Considerando o par de Tesouro Prefixado 2032 e IPCA+ 2032, a inflação implícita para o período recuou de cerca de 5,89% para 5,81% ao ano.
Indicadores econômicos sustentam o movimento
Dois indicadores divulgados na quinta-feira ajudam a explicar o movimento dos títulos públicos. O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) registrou deflação de 1,16% em julho, aprofundando o recuo de 0,50% de junho, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). Além disso, a taxa de desocupação medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho, a menor para o período na série iniciada em 2012. Esses dados reforçam a percepção de que a inflação corrente está controlada, mas as expectativas de juros futuros permanecem elevadas.
Pressão externa: decisão do Fed não foi unânime
Para Felipe Passero, CEO da Jaguaretê Investimentos, a explicação para a abertura do juro real também vem de fora. A decisão do Federal Reserve de manter os juros nos EUA não foi unânime, com três diretores defendendo uma alta de 0,25 ponto percentual. “Alguns diretores propondo alta de juros faz com que a perspectiva de juros fique alta por mais tempo aqui no Brasil, e isso afasta a queda de juros”, afirma Passero. “Se os juros se mantêm altos por mais tempo e a inflação não tão alta, para você ganhar da Selic precisa ter um juro real alto, principalmente no médio e no curto prazo”. Por isso, avalia, o risco da curva de NTN-Bs está concentrado nos vencimentos curtos e intermediários.
Fatores domésticos: IOF e questão fiscal
O segundo fator é de demanda. Passero sustenta que o decreto que passou a cobrar 5% de IOF sobre aportes anuais em VGBL acima de R$ 600 mil por CPF, em vigor desde janeiro, retirou do mercado um comprador relevante de NTN-Bs. “O governo acabou com um comprador marginal de NTN-B, que eram os fundos exclusivos de previdência ou os grandes investidores que tinham situações de liquidez”, afirma. “Hoje quem compra NTN-B são fundos de pensão institucionais de empresa, e esses já compraram, já têm, não vão comprar mais”. Quem vendia uma empresa ou tinha um evento de liquidez, na avaliação dele, mudou de destino. “Vão investir em uma LCI, em uma LCA, em um instrumento incentivado, porque o governo inviabilizou esse veículo de investimento que é a previdência privada”. A pessoa física via Tesouro Direto, acrescenta, não tem volume para substituir esse fluxo.
Perspectiva fiscal negativa
O terceiro ponto é fiscal, onde Passero é mais duro na avaliação. Ele afirma não enxergar perspectiva de melhora das contas públicas e cita programas como o Pé-de-Meia e o Gás do Povo como exemplos de gasto de curto prazo em ano eleitoral. “O Tesouro tenta emitir recursos para pagar esses programas e, do outro lado, acabou com o comprador marginal de NTN-B. Aí a conta não fecha. Aí a taxa de juros tem que ser cada vez maior”.



