Preço atrai, mas cenário pesa sobre ações cíclicas domésticas
Preço atrai, mas cenário pesa sobre ações cíclicas

A combinação de valuations baixos e expectativas de recuperação econômica não tem sido suficiente para impulsionar as ações cíclicas domésticas, que continuam pressionadas por um cenário macroeconômico adverso. Apesar de múltiplos descontados em setores como varejo, construção civil e consumo, analistas apontam que os riscos fiscais, a taxa de juros elevada e a inflação persistente seguem como principais entraves para uma valorização consistente desses papéis.

Valuations atrativos, mas riscos elevados

Segundo relatório do Itaú BBA, as ações de empresas cíclicas brasileiras negociam, em média, a um preço sobre lucro (P/L) de 8,5 vezes para 2026, contra uma média histórica de 11 vezes. Esse desconto de aproximadamente 23% indica que o mercado já incorpora um cenário pessimista. No entanto, para que haja uma reversão de tendência, seria necessária uma melhora concreta nos fundamentos econômicos.

“O valuation é atrativo, mas o cenário macro ainda não dá sinais de melhora. A incerteza fiscal e a manutenção da Selic em patamares elevados inibem o apetite por risco”, afirma Carlos Macedo, analista da XP Investimentos. Ele destaca que setores como o varejo de vestuário e as construtoras de baixa renda são os mais sensíveis ao ciclo econômico e, portanto, os mais afetados.

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Desempenho setorial e perspectivas

No acumulado do ano até meados de julho, o índice de ações cíclicas domésticas (ICD) registra queda de 5,3%, enquanto o Ibovespa apresenta leve alta de 1,8%. Entre os setores, o varejo de alimentos recuou 4,2%, as construtoras caíram 6,1% e o setor de transporte rodoviário de cargas acumula perda de 3,9%. A única exceção positiva foi o setor de educação, que subiu 2,5%, impulsionado por fusões e aquisições.

Para a equipe de análise do BTG Pactual, a recuperação das cíclicas depende de três fatores: queda da Selic, avanço das reformas estruturais e retomada do crescimento do PIB. “A expectativa é de que a Selic comece a cair apenas no primeiro trimestre de 2026, o que posterga qualquer recuperação mais consistente”, explica o relatório.

Estratégias de investimento

Diante desse cenário, muitos gestores têm adotado uma postura cautelosa, reduzindo a exposição a setores cíclicos e aumentando alocações em empresas mais defensivas, como as de utilidade pública e saneamento. “Preferimos esperar sinais mais claros de melhora macro antes de recomendar uma entrada agressiva em cíclicas”, diz o analista do Itaú BBA.

Por outro lado, investidores com horizonte de longo prazo enxergam oportunidades pontuais. “Empresas com baixo endividamento e boa gestão de caixa podem se beneficiar de uma eventual recuperação. Mas é preciso paciência”, pondera Macedo.

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