Mercado de capitais atinge recorde de R$ 361,8 bilhões no 1º semestre de 2026
Mercado de capitais recorde: R$ 361,8 bilhões em ofertas

O mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 361,8 bilhões em ofertas no primeiro semestre de 2026, o maior volume já registrado para o período na série histórica da Anbima, iniciada em 2012. Segundo dados divulgados nesta segunda-feira (27) pela entidade, o montante representa alta de 9,8% sobre os R$ 329,6 bilhões do mesmo período de 2025, distribuídos em 1.513 operações — 13% a mais que um ano antes.

Renda fixa recua, mas diversificação compensa

Embora a renda fixa, tradicional motor das captações, tenha recuado, a queda foi mais do que compensada por outros instrumentos, segundo Cesar Mindof, diretor da Anbima. “Isso mostra a resiliência e diversificação que a gente tem visto o mercado de capitais brasileiro desenvolver”, comentou. A renda fixa teve captação líquida de R$ 288,8 bilhões, queda de 5,1% na comparação anual. Sua fatia no total captado recuou de 92,4% para 79,8% – a menor participação desde o primeiro semestre de 2021. Ainda assim, é o terceiro melhor primeiro semestre da série para o segmento.

“É uma redução natural, tendo em vista os obstáculos, ou os sustos, que a gente tomou no mercado de crédito nesse primeiro semestre”, afirmou Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima. As debêntures captaram R$ 169,8 bilhões, recuo de 12,1%. O número de operações, no entanto, subiu 3,7%, para 278: houve mais emissões, porém menores. Segundo Maranhão, eventos de crédito no início do ano forçaram um ajuste nos spreads e levaram companhias a adiar captações. “As próprias companhias que têm a necessidade, ou que poderiam acessar, não fazem por uma questão de condições de mercado. Elas preferem esperar o momento em que conseguem pagar um spread menor”, disse. As empresas menores, acrescentou, seguiram emitindo, em operações de porte reduzido.

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Incentivadas perdem espaço

Os papéis incentivados e de infraestrutura, isentos de Imposto de Renda para pessoa física, responderam por 38,3% do volume, ou cerca de R$ 65 bilhões, ante R$ 74,5 bilhões um ano antes. O recuo foi próximo ao das debêntures corporativas, de 11,6%. O setor de energia elétrica concentrou 52,9% dessas captações (R$ 34,4 bilhões), seguido por transporte e logística (R$ 9 bilhões) e saneamento (R$ 6,3 bilhões).

Mercado secundário aquecido

No mercado secundário, onde os papéis já emitidos trocam de mãos, o giro de debêntures cresceu 20,6%, para R$ 494,6 bilhões – quase três vezes o volume do primário. As incentivadas avançaram 27,9%, e as corporativas, 15,4%. “No momento mais adverso, a gente viu o mercado secundário muito funcional, muito ativo. Em nenhum momento a gente viu o mercado secundário fechar. Pelo contrário: foi o que deu sustentação para o investidor poder fazer suas movimentações e seus reposicionamentos”, disse Mindof.

FIIs e Fiagros dobram captação

Os títulos híbridos captaram R$ 47,8 bilhões, mais que o dobro dos R$ 21,5 bilhões do primeiro semestre de 2025. Os fundos imobiliários (FIIs) levantaram R$ 39,5 bilhões, alta de 103,9%, em 182 ofertas. Os Fiagros, voltados às cadeias do agronegócio, somaram R$ 8,3 bilhões, avanço de 288,3%, com 74 operações ante 23 um ano antes. Maranhão atribui parte do resultado ao formato dos instrumentos: “permitem uma captação faseada ao longo do tempo. Você não precisa entrar no mercado e captar o volume de uma vez só.” Mindof pondera que uma série de ofertas relevantes se encerrou dentro da janela do semestre, o que ajuda a explicar a concentração do volume, mas afirmou que o efeito “não invalida o dado”. No caso dos Fiagros, Mindof aponta a busca por alternativas ao crédito bancário: “O setor passa por um momento mais desafiador do ponto de vista de crédito e de cenário macro, e isso tem feito com que busque alternativas.”

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Pessoas físicas perdem espaço para fundos

Houve também mudança em quem compra esses papéis. As pessoas físicas seguiram como maiores subscritoras, com R$ 20,7 bilhões, mas sua participação caiu de 45% para 43,4%. Os fundos de investimento saltaram de R$ 6 bilhões para R$ 18,9 bilhões e passaram a responder por 39,6% do total – eram 26,8% em 2024. Para a Anbima, o movimento reflete a migração de investidores que compravam crédito privado diretamente para a gestão profissional, em um período de maior volatilidade.

Bolsa reabre com IPO da Compass

As ofertas de ações somaram R$ 25,2 bilhões em oito operações, contra R$ 3,7 bilhões em quatro no primeiro semestre de 2025 — alta de 583,9%. O semestre já supera todo o volume de 2025 (R$ 15,5 bilhões). Do total, R$ 3 bilhões vieram do IPO da Compass, do grupo Cosan, que estreou na B3 em maio e encerrou um jejum de quase cinco anos sem aberturas de capital no país. O restante, cerca de R$ 22,2 bilhões, veio de follow-ons. Maranhão afirma que o IPO da Compass mostra que o mercado tem “janela aberta” para novas ofertas. O obstáculo, segundo ele, segue sendo o custo de oportunidade imposto pelos juros altos.

Securitização e estreia do CPR-F

Entre os instrumentos de securitização, os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões, alta de 29,4%, em 559 operações. As debêntures de securitização cresceram 46,1%, para R$ 22,4 bilhões. Na direção oposta, os CRAs caíram 50,4% (R$ 7,1 bilhões) e os CRIs, 15,8% (R$ 20,3 bilhões). A Anbima passou a acompanhar de forma detalhada a CPR-F (Cédula de Produto Rural Financeira), que registrou R$ 11 bilhões em dez operações. Segundo os executivos, parte da queda dos CRAs é explicada pela migração para esse instrumento, diante da revisão dos emissores elegíveis a certificados do agronegócio. “É mais um instrumento que permite que as empresas do setor agro não dependam apenas de bancos e passem a acessar investidores institucionais e até mesmo pessoa física”, afirma Maranhão.