A percepção de risco fiscal é o principal fator que pressiona a taxa da NTN-B, título público indexado à inflação, de acordo com análise divulgada nesta terça-feira. O movimento ocorre em meio à crescente desconfiança do mercado em relação à trajetória das contas públicas, o que tem elevado o prêmio de risco exigido pelos investidores para manter esses papéis em carteira.
Impacto do risco fiscal na precificação
Segundo o analista-chefe da gestora XYZ, em entrevista ao Valor, a situação fiscal é o fator que mais pesa na formação da taxa da NTN-B. "O mercado está de olho no comportamento da dívida pública e na capacidade do governo de honrar seus compromissos. Qualquer sinal de deterioração fiscal se reflete imediatamente na curva de juros reais", afirmou.
Nos últimos meses, a taxa da NTN-B de longo prazo, como o vencimento em 2050, subiu de 5,9% para 6,4% ao ano, um aumento de 0,5 ponto percentual, segundo dados da Anbima. Esse movimento acompanha a piora das expectativas para o resultado primário e o aumento da relação dívida/PIB.
Comparação com títulos nominais
Enquanto a NTN-B sofre com o risco fiscal, os títulos nominais, como as LTN, apresentam comportamento distinto. A taxa real implícita nesses papéis, calculada a partir da diferença entre a NTN-B e a LTN, atingiu 6,8%, o maior nível desde 2016. Isso indica que o mercado exige um prêmio adicional para compensar a incerteza sobre a inflação futura e a sustentabilidade da dívida.
Especialistas apontam que a situação é agravada pela falta de uma âncora fiscal clara. O teto de gastos, que era visto como um mecanismo de controle, perdeu credibilidade após sucessivas alterações. "O mercado precisa de previsibilidade, e o que temos visto são mudanças constantes nas regras, o que aumenta o risco de calote ou de repúdio da dívida", disse o economista-chefe de uma corretora.
Perspectivas para os próximos meses
Para os próximos meses, a expectativa é de que a taxa da NTN-B continue sensível aos desdobramentos fiscais. O governo planeja enviar ao Congresso um novo marco fiscal, mas ainda não há detalhes sobre como será. "Enquanto não houver uma sinalização clara de ajuste, o prêmio de risco deve permanecer elevado", completou o analista.
Além disso, a inflação corrente, medida pelo IPCA, está em 4,2% no acumulado de 12 meses, acima da meta de 3,5%, o que também contribui para a pressão sobre os títulos indexados. Com isso, a NTN-B se torna um termômetro da confiança do mercado na política econômica.
Recomendações para investidores
Diante desse cenário, especialistas recomendam cautela na alocação em NTN-B de longo prazo. "Para quem já possui esses títulos, é importante avaliar a marcação a mercado. Para novos investimentos, talvez seja melhor esperar uma definição do quadro fiscal", sugeriu o analista da gestora XYZ.
No entanto, alguns investidores veem oportunidades. "Se a taxa subir ainda mais, pode ser um bom momento de compra, pois o investidor trava um retorno real maior. Mas isso só faz sentido para quem tem horizonte de longo prazo e tolerância à volatilidade", ponderou outro especialista.



