O Tesouro IPCA+ com juros semestrais voltou a oferecer taxas acima de 8% ao ano, patamar considerado raro nos últimos anos. No entanto, especialistas alertam que a taxa real sozinha não justifica a aplicação — é preciso considerar o cenário macroeconômico, o prazo do título e o perfil do investidor.
O que é a taxa IPCA+8%?
A taxa IPCA+8% significa que o título paga a inflação oficial (IPCA) mais 8% de juros reais ao ano. Esse nível é historicamente elevado: nos últimos dez anos, as taxas reais do Tesouro IPCA+ ficaram entre 2% e 6% na maior parte do tempo. A última vez que o papel ofereceu rendimento real acima de 8% foi em 2016, durante a crise política e econômica.
Segundo o economista-chefe da XP, Caio Megale, "taxas reais acima de 8% indicam que o mercado está precificando riscos fiscais e políticos elevados. Para o investidor, é uma oportunidade de travar um rendimento real alto, mas é preciso ter estômago para a volatilidade".
Por que a taxa subiu tanto?
A alta das taxas do Tesouro IPCA+ está ligada à piora das expectativas fiscais. O mercado teme que o governo não consiga cumprir o arcabouço fiscal, o que pressiona os juros futuros. Além disso, a pesquisa eleitoral Quaest divulgada em 15 de janeiro mostrou crescimento do presidente Lula, o que, para analistas, reduz a chance de uma política fiscal mais austera.
O movimento fez com que as taxas longas do Tesouro IPCA+ (vencimentos em 2045 e 2055) subissem mais de 0,2 ponto percentual no dia, chegando a 8,15% e 8,22%, respectivamente.
Vale a pena investir apenas pela taxa?
"Não. A taxa real é apenas um dos fatores", afirma o planejador financeiro CFP Michael Viriato. "É preciso avaliar o prazo, a liquidez e o objetivo. Se você precisa do dinheiro antes do vencimento, pode ter de vender o título com deságio se as taxas subirem ainda mais."
Outro ponto é a marcação a mercado: títulos IPCA+ longos são voláteis. Em 2024, o Tesouro IPCA+ 2045 chegou a cair 15% em valor de mercado antes de se recuperar. Para quem pode carregar até o vencimento, a taxa real está garantida; para quem precisa vender antes, o risco é alto.
Estratégia recomendada
Especialistas sugerem diversificar o prazo e não concentrar todos os recursos em um único título. Uma estratégia comum é montar uma escada de vencimentos (ladder), com títulos de curto, médio e longo prazo. Assim, o investidor reduz o risco de marcação a mercado e aproveita diferentes níveis de taxa.
Para o investidor conservador que busca proteger o poder de compra, o IPCA+ com taxas reais acima de 6% já é considerado atrativo. Acima de 8%, a oportunidade é rara, mas exige cautela.



