O Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe) surpreendeu o mercado ao registrar deflação de 0,03% em julho, abaixo das projeções dos analistas, que esperavam estabilidade ou leve alta. Com o resultado, o indicador acumula alta de 3,60% nos últimos 12 meses, reforçando a tese de que a inflação segue sob controle e abrindo espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a taxa Selic para 14% ao ano na próxima reunião.
Leitura dos especialistas
Economistas consultados pelo InfoMoney avaliam que o dado veio melhor do que o esperado, especialmente pela queda nos preços de alimentos e transportes. A deflação mensal foi puxada principalmente pela redução nos preços de hortaliças, frutas e combustíveis, que compensaram altas em outros grupos, como habitação e despesas pessoais.
"O IPC-Fipe de julho reforça o cenário de desinflação gradual, mas ainda há incertezas fiscais que podem limitar cortes mais agressivos da Selic", afirma a economista-chefe de uma gestora local, que preferiu não se identificar. "O Copom deve cortar 0,50 ponto percentual na próxima reunião, mas a decisão não será unânime."
Impacto na política monetária
A leitura do mercado é que o IPCA, que será divulgado na próxima semana, deve vir em linha com o IPC-Fipe, consolidando a tendência de queda da inflação. Com isso, a probabilidade de um corte de 0,50 p.p. na Selic, para 14% ao ano, aumentou consideravelmente. Contudo, analistas alertam que a comunicação do Copom deve ser cautelosa, dado o cenário externo adverso e a alta do dólar.
"O dado de hoje dá conforto para o Copom, mas a decisão de setembro ainda depende de outros fatores, como a trajetória fiscal e o comportamento do câmbio", explica um estrategista de renda fixa de um banco de investimentos. "Se o dólar continuar pressionado, o comitê pode optar por um corte menor ou até mesmo pela manutenção."
O que esperar para os próximos meses
Apesar da surpresa positiva, os especialistas lembram que a deflação de julho é sazonal e não deve ser interpretada como uma tendência. A expectativa é que a inflação volte a subir nos próximos meses, mas em ritmo moderado. Para o fechamento de 2025, a mediana das projeções do mercado aponta para uma alta de 4,5% no IPCA, dentro do teto da meta, que é de 4,5%.
No cenário internacional, a queda nos preços das commodities e a desaceleração da economia global ajudam a conter pressões inflacionárias. No entanto, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e os conflitos geopolíticos no Oriente Médio podem gerar choques de oferta, elevando os custos de energia e alimentos.
Reação dos mercados
Os mercados reagiram positivamente ao dado, com a curva de juros futuros caindo na parte curta, refletindo a maior probabilidade de corte da Selic. O dólar comercial operava em leve alta, mas analistas acreditam que a moeda deve perder força caso o Copom sinalize cortes adicionais.
Para o investidor, o cenário de juros em queda favorece ativos de renda variável, especialmente setores como varejo e construção civil, que são sensíveis à taxa de juros. No entanto, a recomendação é manter a cautela e diversificar a carteira, considerando a volatilidade do cenário externo.
Próximos passos
O Copom se reúne nos dias 16 e 17 de setembro para decidir a nova taxa Selic. Além do IPC-Fipe, o mercado acompanhará a divulgação do IPCA de julho, que sai no dia 9, e a ata da última reunião, que pode trazer sinais sobre a disposição do comitê em cortar os juros. Até lá, os investidores devem ficar atentos aos dados de atividade econômica e ao cenário político, que podem influenciar as decisões do Banco Central.



