A partir deste sábado, dia 1º, entra em vigor a nova composição da gasolina brasileira: a mistura obrigatória de etanol anidro passa de 30% para 32%. O aumento foi aprovado no mês passado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e tem validade de 180 dias, com possibilidade de prorrogação, por igual período, uma única vez.
Impacto depende do modelo e da origem do veículo
A principal dúvida dos motoristas é se o novo combustível pode danificar o motor. Segundo o professor Marcio D’Agosto, da Coppe/UFRJ, a resposta não é única: depende, principalmente, do modelo, da origem e da fabricação do veículo. Para a maior parte da frota nacional, formada por carros flex, o impacto tende a ser pequeno.
— No Brasil já há muita frota de veículos flex. Não há diferença por conta de tecnologia, mas, para os importados, sim, porque o poder calorífico do etanol é diferente — diz o professor, lembrando que os carros bicombustíveis, chamados de flex power, começaram a ser vendidos no país no início dos anos 2000 e se popularizaram.
Carros importados podem perder rendimento
Segundo D’Agosto, donos de veículos importados podem sentir a diferença na hora de acelerar. Os motores desses carros são calibrados para a gasolina vendida nos países de origem, e, apesar de as montadoras que trazem os modelos ao Brasil programarem a injeção eletrônica para algum nível de etanol, o percentual mais alto pode deixar o motor menos responsivo.
— Os motores dos carros importados são feitos para serem usados com a gasolina daqueles países. Os fabricantes que trazem esses carros até fazem alterações eletrônicas. Mas, com o aumento do percentual do etanol aqui, pode ser que haja perda no rendimento, já que ele tem poder calorífico menor — afirma.
A alteração, por outro lado, não deve impactar os veículos seminovos nacionais, que já utilizam a tecnologia flex.
No exterior, mistura é bem menor
O etanol é usado como aditivo da gasolina em vários países, mas em proporções muito inferiores às brasileiras. Enquanto o Brasil parte agora para 32%, os percentuais internacionais são:
- Europa: 5% a 10% de etanol na gasolina;
- Estados Unidos: adição usual de 10%;
- Japão: teor de 3%.
O governo já estuda elevar ainda mais o percentual no Brasil, chegando a 35%.
Entidades do setor cobram testes técnicos
A Brasilcom, que reúne distribuidoras; a Abicom, de importadores; a Fecombustíveis, de postos; e o SindTRR, de transporte revendedor, divulgaram nota conjunta manifestando preocupação com o aumento do etanol sem a conclusão prévia dos estudos e testes técnicos. Segundo as entidades, cerca de 15% da frota nacional de veículos leves não é flex e pode sofrer impactos, assim como embarcações de pequeno porte e motocicletas movidas exclusivamente a gasolina.
— O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina acima dos atuais 30% também requer a realização de testes específicos para que se determine, com segurança, a sua viabilidade — afirmaram as associações.
Custo por quilômetro pode subir
As mesmas entidades alertam que, embora o litro da gasolina com mais etanol possa ficar mais barato na bomba, o motorista pode acabar gastando mais para percorrer a mesma distância. Como o etanol tem menor densidade energética, o consumo tende a aumentar, exigindo abastecimentos mais frequentes.
Há ainda preocupação com ajustes regulatórios: o aumento da participação do etanol exige novas especificações da gasolina, em especial no que diz respeito à octanagem — que mede a resistência à detonação prematura — e à massa específica, a densidade do combustível.
Biodiesel preocupa em caminhões antigos
Na avaliação de D’Agosto, uma eventual mudança no percentual de biodiesel no diesel pode ter efeito maior do que o etanol na gasolina, sobretudo em caminhões antigos. O biodiesel tem características solventes e atrai água, promovendo uma espécie de “faxina” no sistema de alimentação do veículo. Isso exige mais manutenção, como limpeza de bicos injetores e filtros de diesel.
— Em caminhões antigos, você terá mais gastos com manutenção, mas não terá problema mecânico. Ao longo do tempo, esses veículos acumulam mais resíduos, e o biodiesel limpa isso, desincrustrando a sujeira — afirma, acrescentando que veículos de carga mais novos já são desenvolvidos para a mistura.
Tanques de armazenamento de diesel em garagens e postos de combustíveis também exigiriam manutenção adicional, segundo o professor.



