El Cristiano: canhão paraguaio no Rio é reivindicado há anos
El Cristiano: canhão paraguaio no Rio é reivindicado

O governo do Paraguai voltou a pedir formalmente ao Brasil a devolução do canhão El Cristiano, um obuseiro usado na Guerra do Paraguai e exposto no Museu Histórico Nacional, na Praça 15, no Centro do Rio de Janeiro. O pedido foi entregue nesta sexta-feira ao embaixador brasileiro em Assunção, José Marcondes, em meio a uma nota de rejeição a declarações do presidente Lula sobre o conflito do século XIX.

Paraguai reage a fala de Lula e entrega nota ao Brasil

O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai divulgou comunicado informando que o vice-presidente Pedro Alliana e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano entregaram ao embaixador brasileiro uma nota em que manifestam "rejeição" às falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, eles também voltaram a reivindicar a devolução de troféus de guerra tomados pelo Brasil no século XIX, incluindo o El Cristiano, que está no Rio de Janeiro desde 1870.

O incômodo paraguaio surgiu depois que Lula discursou em Jacareí (SP) defendendo investimentos para a defesa nacional. O presidente afirmou que o Brasil gosta de paz, mas que não poderia se esquecer da Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870. No comunicado, as autoridades paraguaias disseram que Brasil e Paraguai são países "irmãos" e que apresentaram ao embaixador um caminho para "fechar definitivamente as feridas" deixadas pelo conflito.

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A disputa diplomática não é nova. Em 2023, o recém-empossado presidente paraguaio, o conservador de direita Santiago Peña, já havia manifestado o desejo de repatriar a peça, uma dentre várias que o Brasil tomou após derrotar as tropas de Francisco Solano López. Uma reportagem da Deutsche Welle, republicada pelo g1 na época, trouxe o assunto à tona.

O que é o El Cristiano e por que ele é tão simbólico

Apesar de ser chamado de canhão por fontes da época, o El Cristiano é, na verdade, um obuseiro, projetado para disparar balas ocas. A peça tem 153 anos, 2,94 metros de comprimento, 1,34 metro de largura e pesa 12 toneladas. O nome não homenageia nenhuma pessoa: veio da forja onde o bronze de sinos de igrejas paraguaias foi fundido para virar uma arma. "El Cristiano", traduzido do espanhol como "O Cristão", traz uma inscrição que faz referência à origem: "Da religião ao Estado".

O artefato é considerado parte importante da memória do Paraguai e um símbolo da união de esforços durante a guerra. O governo vizinho reivindica sua devolução há mais de uma década. No Brasil, El Cristiano também é tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é visto como parte da memória nacional.

Obuseiro passou por fortificações históricas

“É uma peça com uma história rica nesse sentido. De acordo com o nosso levantamento, esse canhão, com características mais próximas de um obuseiro, ocupou o Forte de Curupaiti em um primeiro momento e depois a Bateria Londres, que era a principal fortificação de Humaitá”, afirmou Pedro Heringer, diretor-substituto do Museu Histórico Nacional.

De acordo com estudiosos, a fundição, as formas e o material do objeto indicam que ele não suportaria o disparo de grandes balas sólidas, arrebentando antes disso. A peça seria usada, na verdade, para disparar granadas cheias de pólvora.

El Cristiano chegou ao Brasil em 1870, como espólio de guerra, e passou a integrar o Arsenal de Guerra, mais especificamente o Museu Militar. Em 1922, com a fundação do Museu Histórico Nacional, foi transferido para o atual endereço, onde permanece em exposição no Pátio Epitácio Pessoa.

Manutenção e visitação no Rio

No pátio onde está instalado, El Cristiano convive com outros artefatos de guerra de grande valor histórico. Entre eles está um canhão de fabricação inglesa do século 18, do reinado de George III, e outro do século 17, deixado no Brasil após a expulsão dos holandeses do Nordeste.

A manutenção de El Cristiano e dos demais canhões em exposição conta com ações diárias e uma intervenção anual mais ampla, que inclui higienização e impermeabilização dos equipamentos.

Quem quiser ver a peça de perto pode visitar o Museu Histórico Nacional de quarta-feira a domingo, das 10h às 17h. Atualmente, a entrada é gratuita por causa das celebrações do centenário da instituição.

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