A Oncoclínicas (ONCO3), que enfrenta forte pressão financeira e adota medidas jurídicas e estratégicas para preservar liquidez, protocolou um pedido de reestruturação extrajudicial para reorganizar cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras. A proposta pode incluir aporte de capital pelos acionistas, conversão de dívida em ações (debt-to-equity), substituição das obrigações atuais por novas dívidas e alongamento dos cronogramas de amortização.
JPMorgan vê potencial de diluição significativa
Na avaliação do JPMorgan, o pedido de reestruturação busca resolver de forma estrutural os problemas de alavancagem e geração de caixa da companhia. Embora as operações estejam sendo preservadas, especialmente os pagamentos a fornecedores, o banco avalia que o potencial de diluição para os atuais acionistas é significativo caso a empresa tenha sucesso nas negociações com os credores.
O JPMorgan afirma que a eventual participação da IG4, como especulado recentemente, pode facilitar as negociações e fornecer novo capital. Entretanto, a instituição destaca que a estrutura de debêntures conversíveis estaria sendo negociada dentro de um passivo de R$ 5,1 bilhões, enquanto o valor de mercado da companhia é inferior a R$ 1 bilhão. Assim, mesmo uma solução bem-sucedida provavelmente exigirá concessões relevantes dos credores e poderá resultar em forte diluição dos acionistas atuais, segundo o banco.
Ativos estratégicos, mas pouco valor residual para acionistas
Em resumo, o JPMorgan ressalta que os ativos da Oncoclínicas continuam tendo valor estratégico para o setor, dada sua escala em infusões oncológicas. Contudo, o banco acredita que pouco valor residual poderá sobrar para os acionistas da companhia após o equacionamento das obrigações financeiras. Diante desse cenário, o JPMorgan mantém recomendação underweight (exposição abaixo da média, equivalente à venda) para as ações da companhia.
O que levou a essa situação? Análise da XP
Segundo a XP, a situação financeira da Oncoclínicas é resultado de uma combinação de fatores que pressionaram a geração de caixa e elevaram a alavancagem nos últimos anos. Entre os principais fatores está o ciclo agressivo de expansão, marcado por diversas aquisições de clínicas concorrentes e investimentos relevantes na construção de grandes hospitais. Esse movimento gerou um volume expressivo de compromissos financeiros futuros, incluindo pagamentos relacionados às aquisições, além de elevados custos com contratos de aluguel e operações built to suit (BTS).
A corretora também destaca que a rentabilidade da empresa foi impactada pela implementação, a partir do terceiro trimestre de 2024, de uma nova política comercial. A estratégia priorizou a redução da exposição a determinados planos e operadoras de saúde com prazos mais longos de recebimento, em uma tentativa de preservar o capital de giro. No entanto, a transição levou a uma menor escala operacional, reduzindo a diluição dos custos fixos e pressionando as margens.
Além disso, o cenário de juros elevados manteve as despesas financeiras em patamar elevado, superando a geração de caixa operacional e aumentando os desafios para o cumprimento das cláusulas financeiras (covenants) da dívida.
Impacto do Banco Master
A situação se agravou ainda mais com um evento de crédito envolvendo o Banco Master. A Oncoclínicas possuía mais de R$ 430 milhões aplicados em CDBs da instituição financeira e, com a liquidação extrajudicial do banco no fim de 2025, perdeu acesso imediato a esses recursos. Parte dessa exposição, equivalente a R$ 217 milhões, já havia sido provisionada no terceiro trimestre de 2025, enquanto a exposição contábil líquida remanescente somava cerca de R$ 216 milhões.
Para a XP, a indisponibilidade desses recursos provocou uma deterioração abrupta da liquidez de curto prazo da companhia, reduzindo significativamente sua capacidade de absorver obrigações financeiras no curto prazo e adicionando pressão adicional sobre sua estrutura de capital.
Resultados pressionados no 4º trimestre de 2025
No quarto trimestre de 2025, a Oncoclínicas apresentou resultados ainda pressionados pelos efeitos da reestruturação operacional e financeira. A receita líquida somou R$ 1,4 bilhão, queda de 12,6% na comparação anual, refletindo o encerramento do atendimento à Unimed FERJ e a adoção de uma política comercial mais seletiva. No acumulado do ano, a receita recuou 7,8%, para R$ 5,74 bilhões.
O EBITDA ajustado atingiu R$ 238,8 milhões no trimestre, com margem de 17,4%, enquanto o prejuízo líquido ajustado alcançou R$ 582,4 milhões. Em 2025, a companhia registrou prejuízo ajustado de R$ 945 milhões, impactado também pelas perdas relacionadas às aplicações no Banco Master, que totalizaram cerca de R$ 430,9 milhões ao longo do segundo semestre.
Apesar de um fluxo de caixa operacional positivo de R$ 510 milhões no trimestre, sustentado por antecipação de recebíveis e renegociação com fornecedores, a estrutura de capital permaneceu bastante pressionada. A alavancagem para fins de covenants alcançou 4,3 vezes ao final de 2025, acima do limite contratual, levando à reclassificação de grande parte das dívidas para o curto prazo.
Com isso, a dívida bruta atingiu R$ 3,3 bilhões, dos quais aproximadamente 98% passaram a vencer no curto prazo, intensificando a pressão sobre a liquidez e levando a companhia a iniciar negociações com credores e buscar medidas judiciais de proteção.
Além disso, o auditor independente destacou incerteza relevante quanto à continuidade operacional da empresa, citando o prejuízo líquido consolidado de R$ 3,67 bilhões em 2025 e o capital circulante líquido negativo de R$ 2,3 bilhões ao fim do ano.



