Um mês após o lançamento, o Programa Move Brasil Aplicativos está longe de atingir os resultados esperados. Criado para facilitar o financiamento de veículos 0 km para motoristas de táxi e de aplicativos, a iniciativa utilizou apenas R$ 1 bilhão dos R$ 30 bilhões disponibilizados e contemplou pouco mais de 10 mil profissionais em todo o País, segundo balanço do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Análise de crédito trava financiamentos
O principal entrave está na análise de crédito feita pelas instituições financeiras. Muitos motoristas relatam dificuldades para conseguir aprovação do financiamento, mesmo cumprindo os requisitos do programa. A situação gerou críticas do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Entre os principais questionamentos, Boulos criticou a rejeição de propostas de motoristas com nome limpo, a exigência de entrada em contratos que poderiam ser financiados integralmente e a falta de alinhamento entre o BNDES e as instituições financeiras participantes.
Condições do programa versus prática
A linha de crédito prevê financiamento sem entrada, em até 72 parcelas, com carência de até seis meses. As taxas de juros são de até 12,6% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres. Na prática, essas condições representam um teto, não uma garantia para todos os compradores.
De acordo com o superintendente de Vendas Diretas da Carbel Auto Group, Rafael Vieira, a palavra final continua sendo da instituição financeira. "O programa contempla possibilidades até sem entrada. O crédito vem de acordo com a aprovação da instituição financeira escolhida. O prazo e a carência também dependem do perfil do comprador."
Bancos ainda veem risco elevado
O presidente da ANEF (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras), Enilson Sales, afirma que o aporte de R$ 30 bilhões não elimina as dificuldades. "Temos uma dificuldade porque o motorista autônomo não tem renda fixa. Para financiar 100% de um carro de R$ 150.000 em 72 vezes sem entrada, seria necessária uma renda muito acima da média do brasileiro."
Segundo Enilson, os bancos costumam exigir entrada e reduzir o prazo para diminuir a exposição ao inadimplemento. "Cerca de 75% de todos os financiamentos do País têm entrada." Para ele, seria necessário aproximar as regras da realidade do mercado: "Se o mercado cobra, em média, 25% de entrada, então você deveria fazer um programa que cobrasse, no mínimo, 25% de entrada."
Concessionárias recorrem a alternativas
Enquanto muitos clientes não conseguem aprovação, concessionárias recorrem a alternativas tradicionais de crédito ou ao consórcio. "Se as políticas do governo não fossem adequadas para aquele perfil, nós tentávamos um modelo de financiamento tradicional. Mas o que mais estamos oferecendo é o consórcio", afirmou Rafael Vieira.
FGI pode destravar a iniciativa
Diante da dificuldade, o governo federal iniciou a operacionalização do FGI (Fundo Garantidor de Investimentos), que amplia as garantias aos bancos e reduz o risco das operações. Para Enilson Sales, esse é o principal fator para a iniciativa ganhar tração. "Se o aporte fosse de R$ 25 milhões e R$ 5 milhões destinados ao Fundo Garantidor, o programa decolaria muito mais rápido porque os bancos teriam garantia."
O presidente da ANEF também avalia que faltou diálogo entre governo e instituições financeiras antes do lançamento. "No programa de caminhões tivemos uma discussão longa. Mas nesse específico, fomos chamados para um fórum uma semana antes do lançamento. O caso da garantia foi levantado pelos bancos. Tudo em uma única reunião."
Apesar das críticas, Enilson afirma que bancos, montadoras e concessionárias querem o sucesso da iniciativa. O Fundo Garantidor tende a aumentar a adesão, mas os resultados devem aparecer gradualmente. "Naturalmente, as instituições financeiras vão apoiar. Mas precisa de tempo para decolar. Não vai ser amanhã de manhã que as vendas vão disparar."



