Indústria recua 1,8% em junho e esfria PIB do 2º trimestre
Indústria recua 1,8% em junho e esfria PIB do 2º trimestre

A produção industrial brasileira recuou 1,8% em junho, resultado bem abaixo do consenso de mercado, que previa queda de 0,9%. A retração, disseminada entre os setores pesquisados pelo IBGE, evidencia os efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade econômica e deve reduzir a contribuição da indústria para o PIB do segundo trimestre, alertam economistas. Apesar da perda de fôlego, que pode ajudar o Copom no ciclo de calibragem dos juros, algumas instituições resistem em revisar projeções para uma Selic abaixo de 14% ao final do ano.

Desempenho fraco e disseminado

Em junho, a produção industrial caiu 1,8% ante maio, enquanto na comparação anual registrou alta de 1,7%. No acumulado do ano, o avanço é de 1,5%, e em 12 meses, de 0,7%. A indústria extrativa, que havia sido destaque positivo no primeiro trimestre, recuou 5,9% em junho, somando a segunda queda consecutiva, conforme análise de André Valério, economista sênior do Inter.

Todas as quatro categorias econômicas pesquisadas apresentaram queda no mês. Os bens de consumo não duráveis caíram 4,1%, e os duráveis, 3,2%. Bens de capital recuaram 1,1%, terceiro mês seguido de queda, enquanto bens intermediários também caíram 1,1%, puxados pela forte retração na produção de combustíveis.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

No acumulado em 12 meses, exceto bens intermediários, todas as categorias apresentam crescimento negativo, com destaque para bens de capital, que acumula queda de 4,6%. Esse cenário indica que as condições financeiras adversas têm sido um entrave para a atividade industrial.

Impacto no PIB e no Copom

“Com o resultado de junho, a produção industrial deverá ser uma contribuição tímida para o PIB do 2º trimestre. O crescimento da indústria no 2º trimestre, de acordo com a PIM-PF, foi de 0,35%, bem abaixo dos 1,37% observados no 1º trimestre, e muito influenciado pelo bom desempenho das indústrias extrativas desde a eclosão do conflito no Irã”, comparou Valério.

Para o economista, os dados de atividade sugerem moderação do crescimento, o que contribui para o Copom continuar o ciclo de calibragem da Selic. “Esperamos novo corte de 25 pontos base amanhã e em todas as reuniões restantes desse ano, levando a Selic a 13,25% ao final de 2026”, estimou.

Análise da XP: perda de tração

A XP também comparou o desempenho do segundo trimestre com o primeiro, período que a casa denominou “Sonho de Uma Noite de Verão”. A produção industrial esteve virtualmente estável no segundo trimestre. “Expandiu-se apenas 0,3% em relação ao trimestre anterior, uma desaceleração acentuada face ao ganho de 1,4% registado no 1º trimestre.”

“A fraqueza foi generalizada: 16 das 25 atividades pesquisadas registaram quedas mensais. A indústria transformadora caiu 1,8% em termos mensais (+1,1% em termos anuais), enquanto a indústria extrativa diminuiu 0,6% em termos mensais, mas permaneceu como o setor com melhor desempenho em termos anuais”, mostrou a análise.

Após o revés de junho, a XP calculou que a indústria total entra no terceiro trimestre com carry-over de -1,5% em relação ao trimestre anterior, com contribuição negativa de todas as categorias. A estimativa preliminar para julho é de alta de 0,2% na margem e queda de 0,5% na comparação anual. “Além disso, ao incorporar os valores de junho, o nosso tracker para o crescimento do PIB do 2.º trimestre de 2026 caiu de 0,47% para 0,40% em relação ao trimestre anterior (de 1,97% para 1,87% em termos anuais). Mantemos a nossa previsão do PIB para 2026 em 2,0%, sem viés.”

Visão da Manchester: desaceleração no consumo e investimento

Leonardo Mendes, analista da Manchester Investimentos, chamou atenção para o segundo recuo mensal consecutivo da produção industrial e para a perda somada de 2,7 pontos entre maio e junho, o que devolveu grande parte do crescimento acumulado desde o início do ano. “Outro ponto importante é que bens de consumo semi e não duráveis caíram 4,1% e os bens de capital tiveram queda de 1%. Mostra uma desaceleração tanto no consumo, quanto nos investimentos mais produtivos”, afirmou.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Mendes disse que, embora pareça ambíguo afirmar que uma desaceleração possa trazer algum ponto de vista positivo, o resultado pode liberar espaço para o Banco Central continuar a cortar os juros. “De qualquer forma, a indústria no acumulado de 2026 ainda segue crescendo 1,5%, então mostra que não é uma contração generalizada da economia, mas um sinal bem claro de perda de força no segundo trimestre”, comentou, destacando que o cenário para o terceiro trimestre será um pouco mais contracionista, com juros ainda altos e a eleição presidencial à porta.

PicPay: consumo não ajudou

Na opinião de Matheus Pizzani, economista do PicPay, além de efeitos mais longos, como o dos juros, chamou atenção em junho que o dado negativo da PIM não contou com impactos positivos de curto prazo esperados, como a queda da inflação de alimentos e o fator sazonal do inverno, que traz maior dinamismo ao setor de vestuário. Esses fatores deveriam gerar maior impulso para o subgrupo de bens semi e não duráveis, mas eles sofreram retração de 4,1% no período, a terceira consecutiva, consolidando contribuição negativa para a indústria e para o PIB do segundo trimestre.

Pizzani também citou a segunda queda consecutiva da indústria extrativa, que não foi capaz de materializar a expectativa benigna em função da situação geopolítica internacional. “Em maio, este segmento já havia sofrido retração, com queda de 2,6%. A explicação passa tanto pela demanda relativamente mais fraca de produtos importantes para o setor, como o minério de ferro, bem como a possível utilização de estoques em outros segmentos, algo que causaria redução natural da produção de bens finais mesmo em um cenário de preços mais atrativos”, explicou.

Ele argumentou que o dado de hoje reforça a perspectiva de contribuição neutra ou, no limite, negativa do setor industrial para o PIB no segundo trimestre. Esse fator, aliado ao desempenho mais ameno dos demais setores e à trajetória mais moderada do mercado de trabalho, deve impedir a retomada das discussões sobre hiato do produto e eventuais pressões inflacionárias, permitindo a manutenção do ciclo de calibragem de juros. “Seguimos projetando alta de 0,4% para o PIB do segundo trimestre e 1,70% para o consolidado do ano, motivado pelo arrefecimento dos setores mais sensíveis às variações dos ciclos econômicos, como é o caso da própria indústria.”

“No caso da política monetária, a combinação dos elementos citados com o arrefecimento marginal da inflação tendem a funcionar como pilares para a continuidade da calibragem da Selic, cujo patamar terminal em 2026 é projetado por nós em 13,50%.”

C6 Bank e ASA: perspectivas para a indústria

Na visão de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, a produção industrial deve continuar perdendo fôlego nos próximos meses, refletindo principalmente o desempenho mais fraco da indústria de transformação. “Na outra ponta, a indústria extrativa deve seguir em expansão, oferecendo algum suporte ao setor industrial como um todo. Nossa projeção é que a produção industrial encerre 2026 com um leve crescimento em relação ao ano passado”, ponderou.

Ela disse ainda que o dado mais fraco corrobora a leitura de que a atividade econômica está em desaceleração, embora de forma gradual. O mercado de trabalho aquecido, a renda crescente e as medidas de estímulo do governo, como incentivos à concessão de crédito, devem ajudar a sustentar a economia nos próximos trimestres. “Nossa expectativa é que o PIB cresça 1,7% em 2026.”

Sobre os juros, Claudia Moreno espera que a projeção do Banco Central para a inflação no horizonte relevante fique próxima da meta, permitindo uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de amanhã. “O Copom não deve fechar as portas para cortes adicionais ao longo deste ano, mas mantemos nossa expectativa de que os juros terminem 2026 em 14% ao ano.”

Leonardo Costa, economista do ASA, analisou que, embora parte da fraqueza possa refletir ajustes pontuais, a combinação de média móvel negativa, perda de dinamismo dos bens de consumo e fraqueza persistente dos bens de capital sugere moderação mais ampla do setor no meio do ano. “Para os próximos meses, esperamos que a indústria siga operando em ritmo mais contido, consistente com um crescimento econômico mais moderado na segunda metade do ano”, previu.

Itaú: surpresa negativa

O Itaú avalia que os dados de hoje surpreenderam negativamente, com a manufatura apresentando desempenho mais fraco em junho, impulsionada principalmente por derivados de petróleo, biocombustíveis e bens duráveis. “No geral, no 2º trimestre de 2026, o setor industrial foi apoiado pela indústria extrativa, que mais uma vez apresentou desempenho forte durante o período, enquanto a manufatura permaneceu estável, perdendo impulso ao longo do trimestre.”