Importação de aço cai no Brasil, mas Morgan Stanley alerta para evasão fiscal
Importação de aço cai no Brasil, mas Morgan Stanley alerta

As medidas de defesa comercial implementadas para proteger a siderurgia nacional começam a mostrar seus primeiros efeitos práticos no mercado financeiro brasileiro. De acordo com um relatório divulgado pelo Morgan Stanley nesta quarta-feira (15), as importações de aço no Brasil registraram retração após as decisões favoráveis sobre tarifas de antidumping (AD) tomadas em fevereiro de 2026.

Analistas veem riscos de evasão fiscal

Porém, os analistas do Morgan Stanley afirmam que ainda é precipitado considerar a barreira tarifária um triunfo consolidado contra a concorrência estrangeira. O documento destaca indícios de que importadores já articulam estratégias para contornar as taxas vigentes, apesar desse processo estar acontecendo mais lentamente do que o projetado pelo mercado.

“As importações diminuíram desde as decisões favoráveis de medidas antidumping no início deste ano, mas acreditamos que é muito cedo para declará-las um sucesso e destacamos sinais iniciais de que a evasão fiscal pode estar surgindo, embora em um horizonte de tempo mais longo do que esperávamos inicialmente”, afirmam os analistas do banco.

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Impacto nas ações da Gerdau e Usiminas

Com a proximidade da divulgação dos balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26), a equipe de análise do Morgan Stanley ajustou seus modelos financeiros para as principais companhias do segmento na B3. A instituição manteve uma recomendação neutra para os papéis da Gerdau (GGBR4) e da Usiminas (USIM5), mas subiu os preços-alvo de R$ 24 e R$ 7,80 para R$ 26 e R$ 9,70 por ação, respectivamente.

As projeções de lucratividade das duas companhias para o período vieram ligeiramente acima do consenso de mercado. Para a Gerdau, o Morgan Stanley estima um Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 3,303 bilhões no segundo trimestre de 2026. Para a Usiminas, a projeção do mesmo indicador ficou estabelecida em R$ 676 milhões para o mesmo intervalo de três meses.

Retração inicial das importações

Os dados levantados pelo Morgan Stanley mostram que a queda no volume de aço estrangeiro que entra no Brasil logo após as sanções de fevereiro foi influenciada por uma corrida prévia de nacionalização de mercadorias. Segundo os analistas, muitos importadores aceleraram o desembaraço aduaneiro antes que as novas taxas entrassem em vigor, inflando artificialmente os estoques domésticos no início do ano e forçando a desaceleração das compras nos meses seguintes.

As compras totais de aço importado pelo Brasil avançaram sequencialmente 35% em janeiro e 22% em fevereiro, recuando nos meses de março, abril e maio, antes de voltarem a subir expressivamente 52% em junho. Conforme o relatório, essa instabilidade estatística indica que o mercado interno ainda está absorvendo os efeitos das novas regras.

Fluxo asiático retoma força

O banco de investimentos explica que o fluxo de embarcações vindas da Ásia voltou a ganhar tração recentemente, o que deve pressionar os números de importação no início do segundo semestre. Além disso, eles ressaltam que o volume de exportação de aço chinês destinado ao Brasil, que costuma demorar até dois meses para chegar, saltou de 73 mil toneladas em abril para 125 mil toneladas em maio, sinalizando um repique de desembarques para os meses de julho e agosto.

Contornos internacionais e transbordo

Os analistas também ressaltaram que, com tarifas impostas diretamente ao aço produzido na China, os agentes importadores passaram a buscar brechas logísticas e operacionais para evitar o pagamento dos tributos adicionais. Por se tratarem de sanções direcionadas geograficamente e por categorias de produtos, o Morgan Stanley identificou indícios de redirecionamento de cargas por meio de nações intermediárias que não estão sujeitas às tarifas de AD, além de possíveis alterações técnicas nas especificações do material para escapar do enquadramento fiscal.

As estatísticas de monitoramento de navios do Porto de São Francisco do Sul, principal ponto de entrada de aço importado no Brasil, confirmam que, mesmo que o fluxo direto de embarcações chinesas tenha arrefecido significativamente, novos navios carregados com o insumo começaram a chegar de origens alternativas.

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“As importações da Coreia do Sul, Vietnã e Egito começaram a aumentar, sugerindo um possível transbordo”, ressalta o documento do Morgan Stanley.

O volume vindo desses países ainda é considerado baixo para causar um impacto no mercado interno de curto prazo, de acordo com os analistas. Porém, o movimento serve de alerta para o setor siderúrgico nacional. Além do redirecionamento de rotas marítimas, os analistas apontam que produtos classificados como “Aço Pleno de Baixo Carbono” mostram indícios de reclassificação técnica de mercadorias para fugir das tarifas.

Papel do governo brasileiro

Por fim, o banco de investimentos acredita que o sucesso dessas manobras de evasão tarifária dependerá do nível de rigor do governo brasileiro. Se o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mantiver uma postura célere na fiscalização, o cenário de proteção para as siderúrgicas nacionais pode se consolidar de forma mais perene. De acordo com o Morgan Stanley, o processo regulatório nacional permite que novas NCMs (Nomenclaturas Comuns do Mercosul) ou nações de origem sejam incorporadas a investigações já existentes com relativa facilidade, o que daria maior agilidade ao governo para conter tentativas de drible fiscal pelos importadores.