Funkeiros viram empresários e assumem controle das próprias carreiras
Funkeiros viram empresários e assumem controle de carreiras

Músicas como "Pau Pra Toda Obra" e "Cuida do Pet" dominam o Top 50 do Spotify Brasil, revelando uma nova tendência no funk: MCs que se tornaram empresários de si mesmos e de colegas. "Pau Pra Toda Obra", em segundo lugar, acumula 10 milhões de visualizações no YouTube em uma semana e é interpretada por MC Jacaré, MC Ryan SP, MC IG e MC Lele JP. Fora do eixo Rio-SP, Jacaré é de Goiânia e dono da Croco Hits; Ryan SP comanda a Bololô Records; e IG lidera a Gringos World Produtora, que gerencia sua carreira e a de Lele JP. Já "Cuida do Pet", em terceiro lugar, reúne MCs Negão Original, Aaron Modesto, Willian, Iguinho CT e Du'l, com produção de Oldilla e Alladin. Negão Original é dono da Rauls Produtora, que cuida de Iguinho CT. Willian e Alladin são agenciados pela Cria Hit, de DJ Loirin. Du'l e Aaron Modesto são da GLife Records, do MC GP. Oldilla tem sua própria Oldilla Records.

Modelo de negócios inspirado por MC Kevin

Esse modelo foi idealizado por MC Kevin (1998-2021), que não conseguiu implementá-lo totalmente. Seguindo seus passos, os funkeiros assumiram as rédeas das próprias carreiras e passaram a agenciar colegas com o discurso: "quem melhor que a gente para entender o que um artista precisa?" Na prática, o discurso ainda encontra falhas, mas as ações já transformaram o mercado musical.

Antes: domínio da GR6

Desde que se estabeleceu em São Paulo, o funk era gerido por empresas de médio porte como Máximo e Nois Por Nois, que cuidavam de nomes como MC Guimê e Rodolfinho. Desde meados dos anos 2010, a GR6 passou a dominar o mercado, agenciando o máximo de artistas possível e dominando o booking das casas de show. No entanto, antes da pandemia, MCs como Pedrinho e Kevin alegaram falta de transparência nos repasses digitais. Kevin rescindiu com a GR6 e criou a Revolução Records no fim de 2020, mas a operação foi tumultuada, com dificuldades em fechar contratos. Em maio de 2021, ele morreu em um acidente no Rio.

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Semente plantada

A ideia de Kevin chamou a atenção dos colegas. Até 2025, nenhum funkeiro havia atingido grande sucesso como empresário e MC. MC IG explicou ao g1: "A GR6 oferece uma estrutura completa para o artista, que muitas vezes só se preocupa em cantar." O primeiro a obter resultado sólido foi MC Ryan SP, em outubro de 2025, com "Posso Até Não Te Dar Flores", produzida pela Bololô Records, que chegou ao topo das paradas.

Como é agora

Bololô Records, de Ryan, e Gringos, de IG, são as maiores produtoras lideradas por MCs em São Paulo. Elas fornecem estrutura para gravação de videoclipes, distribuição e staff para shows. Artistas que assinam com essas produtoras destacam vantagens como casting pequeno, contratos mais diluídos e maior informalidade. MC Lele JP afirma: "Quando estou numa reunião, sinto que sou ouvido diferente. Meu empresário passou pelo que já passei."

As produtoras ainda enfrentam obstáculos. O primeiro é a estrutura formal: DJ Loirin, da Cria Hit, diz: "Às vezes, tem gente que acha que é só entrar em estúdio e subir a música no YouTube. Mas o problema aparece depois na divisão do dinheiro." O principal obstáculo é construir um bom setor de venda de shows. Com mais de 15 anos de experiência, a GR6 domina essa reserva de mercado. No entanto, flexibilizou contratos e passou a fechar acordos pontuais com as produtoras de MCs, cuidando apenas das agendas. É o caso de Lele JP: a parte artística fica com a Gringos, e a venda de shows, com a GR6.

Essa mudança deu mais capilaridade ao mercado do funk, com mais opções de empresas organizadas e maior cobrança por profissionalismo. Apesar da revolução sugerida por Kevin, muitos MCs ainda têm dificuldades para entender o que é um fonograma e como funciona a divisão de ganhos. Com o tempo, esses artistas vão ficando no passado, enquanto uma nova geração surge com mais conhecimento e desejo de independência.

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