A escassez global de chips de memória RAM está impactando diretamente a produção de eletrônicos no Brasil, com aumentos de preços que chegam a ultrapassar 31% em alguns casos. A demanda crescente, impulsionada por data centers e inteligência artificial, superou a capacidade de oferta, gerando uma corrida por componentes e elevando os custos para fabricantes e consumidores.
Impacto na fabricação de computadores
Na fábrica da Positivo Tecnologia, em Curitiba, a batalha diária para garantir estoques de memória RAM tornou-se rotina. O presidente da empresa, Hélio Bruck Rotenberg, relata que o preço do componente disparou: "Essa memória aqui, que custava cerca de R$ 150 em agosto, setembro do ano passado, ou seja, antes da crise, hoje não se encontra por menos de R$ 1 mil. É um aumento assim que a gente nunca viu". Apesar da pressão, a empresa ainda não enfrentou falta de produto, mas a situação exige atenção constante.
Causas: concorrência e inteligência artificial
O motivo para a alta é a concorrência global por chips de memória. A demanda não para de crescer, especialmente em data centers, que podem exigir centenas de milhares ou até milhões de chips. O avanço da inteligência artificial intensifica ainda mais essa necessidade. Os chips usados no Brasil são majoritariamente importados de países asiáticos, tornando o país vulnerável às flutuações do mercado internacional.
Perspectivas de normalização
A solução para a escassez depende da construção de novas fábricas, um processo que demanda investimentos bilionários e tempo. Victor Arnaud, presidente da Equinix, alerta: "Muitos analistas já estão falando que essa curva só volta ao normal em 2027, 2028, considerando o tempo necessário para que essas fábricas fiquem prontas e em capacidade de plena produção. Então, provavelmente, a gente ainda tem alguns trimestres aí de uma cadeia de valor mais pressionada".
Efeitos nos preços e comportamento do consumidor
Com os custos mais altos, os eletrônicos já registraram aumentos médios de 10%, podendo ultrapassar 31% em alguns casos. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) avalia que a valorização do real frente ao dólar ajudou a conter o repasse integral aos preços finais. O presidente da Abinee, Humberto Barbato, observa uma mudança no comportamento do consumidor: "Em função do crescimento de preços, você começa a ter um downgrade do modelo de equipamento. Os mais sofisticados estão sendo deixados de lado, porque eles são mais caros, e as pessoas talvez estejam comprando equipamentos que são um pouco mais econômicos, não tão sofisticados".
Estratégias de adaptação
Para quem depende de computadores de alta performance, como o desenvolvedor de software Rodrigo Carvalho, a troca do equipamento foi adiada. Ele explica: "Eu geraria uma dívida para comprar um computador mais novo. Então, eu acabei instalando um sistema operacional mais simples para tentar prolongar um pouco o tempo de vida desse computador". Quando questionado sobre comprar agora, ele responde: "Não, inviável". Essa realidade reflete o impacto da crise de chips não apenas na indústria, mas também no dia a dia dos consumidores brasileiros.



