Crise no varejo: movimentos falimentares crescem 40% no 1º semestre
Crise no varejo: falências crescem 40% no semestre

O número de movimentos falimentares no setor varejista brasileiro saltou 40% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Serasa Experian obtidos com exclusividade pelo Valor. Foram 1.240 pedidos de recuperação judicial e falências entre janeiro e junho, ante 886 no mesmo intervalo de 2025.

Juros altos e consumo fraco pressionam o setor

A escalada nos pedidos reflete o aperto das condições financeiras das empresas, que enfrentam a combinação de juros elevados, inflação de custos e desaceleração do consumo das famílias. A taxa básica de juros, a Selic, permanece em dois dígitos, elevando o custo do crédito e inviabilizando a reestruturação de dívidas de muitos negócios.

Segundo especialistas ouvidos pelo Valor, o varejo é um dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, pois depende diretamente do crédito ao consumidor e da confiança do consumidor. Com o endividamento das famílias em níveis recordes, as vendas a prazo caíram, e o fluxo de caixa das lojas encolheu.

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Perfil das empresas afetadas

Os dados da Serasa Experian mostram que a maioria dos pedidos partiu de pequenas e médias empresas, que têm menos acesso a linhas de crédito e capital de giro. As regiões Sudeste e Sul concentram 70% dos casos, com destaque para São Paulo, que responde por 35% do total.

Entre os segmentos mais atingidos estão vestuário, calçados, eletrodomésticos e móveis, itens de maior valor agregado e que dependem de financiamento. Já o setor de supermercados e farmácias, que vende produtos essenciais, mostrou maior resiliência.

Recuperação judicial: uma alternativa em crise

A recuperação judicial (RJ) continua sendo o instrumento mais utilizado pelas empresas para tentar evitar a falência. No semestre, foram 980 pedidos de RJ, alta de 35% ante o mesmo período de 2025. As falências requeridas somaram 260, um avanço de 52%.

O advogado Marcelo Barbosa, sócio do escritório Barbosa & Associados, que atua em processos de reestruturação, afirma que a lei de recuperação de empresas, embora tenha avançado, ainda é lenta e cara. "Muitas empresas entram em RJ, mas não conseguem aprovar o plano de recuperação a tempo, e acabam convertendo o processo em falência", explica.

Impacto no emprego e na economia

A onda de movimentos falimentares tem impacto direto no emprego. Estimativas do setor indicam que, para cada pedido de falência, cerca de 30 postos de trabalho são perdidos, considerando os empregos diretos e indiretos. Isso pode significar a eliminação de mais de 30 mil vagas no semestre.

Para o economista-chefe de uma consultoria, que preferiu não se identificar, a tendência é que o cenário se agrave no segundo semestre, caso os juros não caiam. "O varejo é o termômetro da economia real. Se o consumidor está sem dinheiro, as lojas quebram, e a cadeia inteira sofre", diz.

Medidas do governo e perspectivas

O governo federal anunciou recentemente um pacote de crédito para pequenos negócios, mas especialistas avaliam que as medidas são insuficientes para reverter a situação. O Ministério da Fazenda estuda novas ações, mas não há previsão de redução da Selic no curto prazo, segundo ata do Copom.

Diante do cenário, a recomendação dos consultores é que as empresas busquem renegociar dívidas, reduzam custos fixos e diversifiquem canais de venda, com foco no e-commerce. "A digitalização é uma saída, mas exige investimento, que é justamente o que falta", pondera Barbosa.

Dados regionais e setoriais

O levantamento da Serasa Experian também revela que o setor de construção civil, que estava em recuperação, voltou a apresentar aumento nos pedidos, embora em menor intensidade que o varejo. No setor de serviços, os pedidos cresceram 12%.

A expectativa é que, com a safra recorde de grãos e a queda da inflação de alimentos, o consumo se recupere gradualmente no próximo ano, mas o varejo deve continuar sofrendo até lá. A Serasa Experian projeta que o número de movimentos falimentares em 2026 possa superar 2.500, o maior desde 2016.

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