Uma análise recente de mais de 5 mil notícias publicadas em veículos brasileiros revelou que a aparência física ainda é o principal fator que define a conversa sobre artistas mulheres, superando até mesmo a discussão sobre a música. O estudo, conduzido pelo Instituto de Pesquisa em Mídia e Sociedade, mostra que 62% das menções a cantoras e instrumentistas estão relacionadas a características visuais, como roupas, cabelo e corpo, enquanto apenas 38% abordam aspectos musicais.
Desigualdade de gênero na cobertura midiática
De acordo com a pesquisadora responsável, Dra. Carla Mendes, os números revelam uma desigualdade estrutural. “Enquanto artistas homens são avaliados principalmente por sua produção musical, as mulheres são frequentemente reduzidas a objetos de apreciação estética. Isso não apenas desvaloriza seu trabalho, mas também reforça estereótipos de gênero na indústria”, afirmou.
O levantamento analisou matérias de portais de notícias, revistas especializadas e redes sociais de fã-clubes entre janeiro e dezembro de 2025. Entre os exemplos citados, uma cantora de MPB teve seu novo álbum comentado em 70% das matérias, mas apenas 20% dessas menções focaram nas composições; o restante destacou seu visual no palco.
Impacto na carreira e na percepção pública
A pesquisa também aponta que essa abordagem influencia diretamente a percepção do público. Em entrevistas com 200 ouvintes, 55% afirmaram lembrar mais da aparência de uma artista do que de sua voz ou letras. “A mídia tem um papel crucial na construção da imagem pública. Quando a aparência domina, o talento fica em segundo plano, o que pode limitar oportunidades profissionais e patrocínios”, explicou a socióloga Beatriz Almeida, que participou do estudo.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Estudos internacionais mostram padrão semelhante em países como Estados Unidos e Reino Unido, mas a diferença aqui é mais acentuada. Enquanto lá a proporção é de 55% para aparência, aqui chega a 62%, indicando um viés cultural mais forte.
Mudanças necessárias na abordagem jornalística
Especialistas defendem que os veículos de comunicação adotem políticas editoriais que priorizem o trabalho artístico. “Precisamos de mais matérias que discutam processo criativo, influências e inovações musicais, em vez de focar no vestido usado no show”, sugeriu a jornalista cultural Renata Gomes, que não participou do estudo, mas acompanha o cenário.
Algumas iniciativas já começam a surgir. Um coletivo de jornalistas lançou um guia de boas práticas para cobertura de artistas mulheres, recomendando perguntas sobre composição e produção, e evitando termos que sexualizem ou reduzam a pessoa à aparência.
Reação das artistas e do público
Nas redes sociais, artistas têm se manifestado. A cantora e compositora Luísa Martins, que aparece no estudo como uma das mais afetadas, comentou: “É cansativo ver meu trabalho sendo resumido a um vestido ou a um corte de cabelo. Minha música é o que eu tenho de mais verdadeiro, e quero que as pessoas falem sobre ela.”
O público também parece cobrar mudanças. Uma petição online, criada em março, já reúne mais de 30 mil assinaturas pedindo que veículos deem mais espaço à análise musical de artistas mulheres. A hashtag #MúsicaAcimaDaAparência viralizou, com milhares de posts apoiando a causa.
Perspectivas futuras
Para a Dra. Carla Mendes, a mudança é gradual, mas possível. “A mídia tem o poder de transformar narrativas. Se houver conscientização e vontade, podemos ver uma cobertura mais justa e equilibrada nos próximos anos. Isso beneficia não apenas as artistas, mas também o público, que passa a ter acesso a um conteúdo mais rico e diverso”, concluiu.
O estudo completo será publicado no próximo mês na revista científica Comunicação & Sociedade, e os pesquisadores planejam ampliar a amostra para incluir veículos de rádio e televisão.



