A Gávea Investimentos, uma das gestoras independentes mais antigas e influentes do mercado brasileiro, fundada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, comunicou nesta segunda-feira aos seus investidores que está encerrando a gestão dos fundos multimercados da família Gávea Macro. A administração desses fundos será transferida para a Bradesco Asset, braço de gestão de recursos do Bradesco.
De acordo com o comunicado oficial, a gestora encerrará a atividade de gestão de terceiros da família Gávea Macro, que é composta por cinco fundos, incluindo carteiras destinadas à previdência privada. Os cotistas serão convocados para assembleias específicas para aprovar a mudança de gestor. A nota expressa gratidão: “Somos profundamente gratos pela confiança, parceria e apoio recebidos ao longo dos últimos 23 anos”. E complementa: “Durante todo esse período sempre nos mantivemos alinhados com nossos clientes ao investimento de uma parcela considerável do patrimônio dos sócios na mesma estratégia macro”.
Contexto de crise no setor de multimercados
A decisão da Gávea reflete o momento delicado que atravessa a indústria de fundos multimercados no Brasil. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que, até o dia 30 de julho, os fundos multimercados da categoria Macro – que buscam lucro com a análise de variáveis econômicas domésticas e internacionais – registraram resgate líquido de R$ 8,8 bilhões no ano. Em 12 meses, o volume de saídas alcança R$ 13,3 bilhões, reduzindo o patrimônio total desses fundos para R$ 97 bilhões no fim de julho.
Esse movimento de saída de investidores é impulsionado, em grande parte, pelos retornos insatisfatórios desses fundos e pela concorrência acirrada de aplicações de menor risco, como títulos públicos, debêntures incentivadas de infraestrutura, LCIs e LCAs. Com a taxa básica de juros (Selic) em torno de 14% ao ano, esses papéis isentos ou de renda fixa tradicional se tornaram extremamente atrativos, desafiando a capacidade dos gestores de multimercados de entregar retornos superiores.
Desempenho fraco e cenário adverso
O desempenho dos fundos multimercados Macro piorou ainda mais em 2026, especialmente após a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã a partir de março, que alterou drasticamente o cenário global e pegou muitos gestores desprevenidos. Até 30 de julho, esses fundos acumulavam alta de 4,37% no ano e de 10,80% em 12 meses, conforme a Anbima. No mesmo período, o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) acumulava 8,14% no ano e 14,84% em 12 meses. Já o Índice de Hedge Funds Anbima, que abrange um espectro mais amplo de multimercados com diferentes estratégias, registrava ganhos de 2,95% no ano e de 10,46% em 12 meses.
No caso específico do fundo Gávea Macro FIF, a rentabilidade no ano até julho foi de 4,35%, praticamente a metade do CDI no período. Criado em 2008, o fundo vinha entregando resultados abaixo do CDI desde 2023. Seu patrimônio líquido no fim de julho era de R$ 325 milhões, com resgates líquidos de R$ 152 milhões no ano. Procurado pela reportagem, Armínio Fraga não comentou o encerramento dos fundos multimercados.
Impacto e perspectivas para o setor
A saída da Gávea do segmento de multimercados é mais um sinal da transformação pela qual passa a indústria de fundos no Brasil. A pressão por resultados, a concorrência dos produtos de renda fixa e a volatilidade geopolítica têm levado gestores tradicionais a repensar suas estratégias. A transferência da gestão para o Bradesco, um dos maiores bancos do país, pode ser vista como uma alternativa para preservar o patrimônio dos cotistas, que terão a oportunidade de migrar para a gestão de um grande player institucional.
Especialistas avaliam que o movimento da Gávea pode influenciar outras gestoras independentes a reavaliar seus portfólios, especialmente aquelas com forte exposição à estratégia macro. O cenário de juros elevados e incertezas globais tende a favorecer produtos mais simples e de menor custo, em detrimento de fundos sofisticados que dependem de acertos em múltiplas frentes econômicas. A decisão da Gávea, portanto, não apenas marca o fim de uma era para a gestora, mas também acende um alerta para o futuro dos multimercados no Brasil.



