Uma publicação que anuncia a fiscalização de velocidade média nas rodovias viralizou nos últimos dias e reacendeu um debate que promete ganhar força no setor de transporte. Enquanto motoristas questionam o aumento do monitoramento eletrônico, uma nova tecnologia começa a ser testada no Brasil: radares capazes de calcular a velocidade média dos veículos ao longo de um trecho inteiro da estrada.
Como funciona o novo sistema
A proposta é simples: impedir que condutores reduzam a velocidade apenas diante dos equipamentos para acelerar novamente logo depois. A BR-101, rodovia com maior número de sinistros do País segundo o Anuário Estatístico 2025 da Polícia Rodoviária Federal (PRF), está sendo usada como laboratório para a tecnologia.
No município de Sooretama (ES), onde o limite é de 60 km/h por causa de uma área de preservação ambiental, um dos primeiros registros apontou um veículo circulando a 124 km/h de velocidade média no trecho monitorado, sem necessariamente ultrapassar o limite exatamente nos pontos onde estavam instaladas as câmeras. O sistema não é exclusivo da rodovia capixaba. Empresas especializadas em fiscalização eletrônica já realizam testes e projetos-piloto em estradas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Diferença dos radares convencionais
O funcionamento é diferente dos radares convencionais. Em vez de registrar a velocidade em um único ponto da via, o sistema utiliza câmeras instaladas em dois ou mais locais do trecho monitorado. Ao identificar a placa do veículo em cada ponto, o software calcula o tempo gasto para percorrer a distância conhecida entre eles. A partir desses dados, determina a velocidade média do trajeto.
Na prática, isso elimina uma estratégia comum entre muitos motoristas: reduzir a velocidade ao se aproximar do radar e voltar a acelerar logo depois. Com a medição ao longo de todo o percurso, o comportamento do veículo passa a ser analisado de forma contínua. Segundo Alexandre Krzyzanovski, diretor de Engenharia do Grupo Pumatronix, a tecnologia já é amplamente utilizada na Europa e tem como objetivo incentivar uma condução mais uniforme. "O usuário entendeu que não adiantava acelerar ou frear em cima do radar, porque ao longo do trecho ele tinha que seguir uma velocidade mais ou menos padrão", afirma.
Benefícios para a segurança
Além de combater o excesso de velocidade, os defensores da tecnologia argumentam que ela pode ajudar a reduzir um dos acidentes mais frequentes nas rodovias brasileiras: as colisões traseiras. De acordo com a PRF, esse foi o tipo de sinistro mais registrado nas rodovias federais em 2025, com 14.360 ocorrências. Uma das explicações é justamente a frenagem brusca de motoristas que reduzem a velocidade apenas ao se aproximar dos radares. Segundo Krzyzanovski, esse comportamento pode surpreender os veículos que vêm atrás, aumentando o risco de acidentes.
Por que ainda não pode multar
Embora os equipamentos já estejam operando em alguns trechos, eles ainda não têm validade para autuação. O principal obstáculo é jurídico. Atualmente, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e as normas da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) exigem que a medição da velocidade seja feita em um ponto específico da via. Como o cálculo da velocidade média ocorre entre dois ou mais locais, a tecnologia ainda não possui respaldo legal para gerar multas.
A situação pode mudar caso seja aprovado o Projeto de Lei 2.789/2023, que tramita no Congresso Nacional. A proposta altera a regulamentação atual para permitir que a velocidade média registrada ao longo de um trecho tenha validade para fins de fiscalização e autuação. Enquanto isso, os sistemas operam em caráter educativo.
Para se ter uma ideia do potencial de fiscalização, o motorista flagrado em Sooretama a uma velocidade média de 124 km/h em uma área limitada a 60 km/h estaria sujeito, em um radar convencional, a uma infração gravíssima, com multa de R$ 880,41 e suspensão do direito de dirigir por exceder em mais de 50% a velocidade máxima permitida.
Impacto para caminhoneiros e transportadoras
A eventual regulamentação do sistema poderá ter reflexos importantes para empresas de transporte. Hoje, muitos gestores monitoram a velocidade dos motoristas principalmente nos pontos onde há fiscalização eletrônica. Com a adoção da velocidade média, a necessidade de manter uma condução regular ao longo de todo o trecho tende a ganhar ainda mais importância.
Além disso, a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de um motorista profissional pode gerar impactos operacionais significativos para as transportadoras, incluindo paralisação do veículo, necessidade de contratação de substitutos e custos adicionais de treinamento e adaptação.
Outro fator que chama atenção é que o Brasil registrou 7,2 milhões de autuações por excesso de velocidade em rodovias federais em 2025, o maior volume desde o início da série histórica da PRF.
O que pode mudar nos próximos anos
As concessionárias já começaram a se preparar para uma possível ampliação da tecnologia. Segundo a Pumatronix, há projetos em fase de testes ou contratação com concessionárias como Tamoios, Motiva e Arteris, em rodovias de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A plataforma pode utilizar tanto câmeras próprias quanto equipamentos de fiscalização já existentes, reduzindo os custos de implantação.
Por enquanto, os sistemas servem apenas para monitoramento e conscientização dos motoristas. Mas a infraestrutura já está instalada e produzindo dados. Caso o Congresso aprove as mudanças na legislação, o Brasil poderá seguir o modelo adotado em diversos países europeus e transformar a velocidade média — e não apenas a registrada em um ponto específico da via — em um novo parâmetro para a fiscalização eletrônica nas rodovias.



