Em apenas dez dias, ao menos oito suspeitos morreram em confrontos entre o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP) na Zona Norte do Rio de Janeiro. Desses, sete eram do CV. Uma mulher, Karolaine Nascimento Neves, de 28 anos, também foi morta durante um ataque do TCP nas comunidades da Tinta e do Dourado, em Cordovil.
No dia 21 de julho, uma perseguição policial resultou na morte de três ocupantes de um GM Tracker vermelho roubado. Policiais do 16º BPM (Cordovil) constataram o registro de roubo do veículo e deram ordem de parada, mas o motorista fugiu. Na Avenida Vicente de Carvalho, o carro bateu num poste. Os agentes dispararam ao menos 50 tiros de fuzil, conforme narrado na delegacia. Dentro do automóvel, havia quatro homens armados; apenas um sobreviveu.
Vítimas identificadas
Os mortos foram Caio Cesar da Silva Sant’Anna (Caio do Quitungo), Liandson da Silva Baraúna (Lomão) e Jonathan da Silva Vilela (Jota). O sobrevivente, Rychardy Victor Azevedo dos Santos (Mato Velho), de 19 anos, tinha mandado de prisão em aberto por envolvimento na megaoperação na Penha e no Alemão, em outubro de 2023, que resultou em 122 mortes. Os PMs encontraram com ele uma pistola 9mm. Após audiência de custódia, sua prisão foi mantida.
O grupo, segundo a polícia, estava num “bonde” saindo do Morro da Fé, no Complexo da Penha, com destino ao Quitungo, em Brás de Pina. Ambas as comunidades são dominadas pelo CV e tornaram-se foco das disputas diárias com o TCP.
Disputa por Tinta e Dourado
As favelas da Tinta e do Dourado, em Cordovil, são o motivo central dos confrontos, segundo fontes ouvidas pelo GLOBO. Historicamente alvo de disputa, elas estão sob controle do CV desde a pandemia. Recentemente, o TCP tenta retomá-las. O chefe local, Adilson Gomes da Hora Júnior (Nico), de 51 anos, preso em maio de 2023 no Complexo de Gericinó, continuava a dar ordens. No entanto, Edgar Alves de Andrade (Doca ou Urso), chefe do Complexo da Penha e integrante da cúpula da facção, destituiu Nico na última quinta-feira, substituindo-o por Bruno da Silva Souza (Tiriça).
— Nico deveria segurar as investidas do TCP, senão sairia do comando. Agora, o Tiriça, conhecido pelo perfil de guerrilha, assume — explicou uma fonte.
Ameaça no áudio
No mesmo dia, um áudio de Tiriça vazou nas redes sociais, confirmado pela polícia. Na gravação, ele diz: “Boa noite. Quem está falando aqui é o Tiriça. [...] A gestão mudou. Agora, quem responde pela firma é o Tiriça, o Doca. [...] A bala vai rufar mesmo. Dourado, Tinta, é tudo CV.”
Do lado rival, Álvaro Malaquias Santa Rosa (Peixão), líder do TCP no Complexo de Israel, iniciou os confrontos. Ele visa a posição estratégica de Tinta e Dourado, a um minuto de carro de Cidade Alta e Cinco Bocas (fortalezas do TCP) e coladas ao Quitungo, cobiçado como porta de entrada para a região da Penha. Se conquistar essas áreas, o TCP fecharia um “cinturão” de favelas na Zona Norte.
A primeira morte orquestrada por Peixão foi a de Geovane Ximenes Araújo, chefe do Quitungo, em maio. Sucedido por Caio César (morto na perseguição), o comando agora é de Vitor da Conceição Campos (Cantor).
— Peixão mandava atacar Tinta e Dourado, mataram quase todo mundo da boca. Nico não conseguia proteger a área e foi retirado. Com Tiriça, deve piorar — afirmou uma fonte.
Proximidade e estratégia
A proximidade do Complexo de Israel (Pica Pau, Parada de Lucas, Vigário Geral) é facilitada pela linha férrea de Brás de Pina. Por baixo dela, traficantes do TCP chegam a Tinta e Dourado.
— Território hoje é dinheiro. Exploram comerciantes, cobram taxa, forçam moradores a adquirir serviços como internet e gás. O TCP quer aumentar arrecadação e se aproximar do Quitungo e Guaporé. Peixão quer chegar à Fé e Sereno, na Penha, mas sabe que Doca reage rápido. Está tomando primeiro o mais fácil — completou um policial.
Festa e revide
Peixão, confortável, teria organizado uma festa no dia 13 para celebrar 19 anos da tomada do Complexo de Israel. Vídeos mostram local lotado, com palco, painéis de LED e fogos de artifício. No domingo, o CV revidou atacando Cidade Alta e Cinco Bocas.
Outros confrontos
Nos dias 18 e 19 de julho, tiroteios no Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, mataram quatro pessoas, incluindo Maiky Brian dos Santos Silva, 16, lutador de kickboxing. Em Costa Barros, no dia 20, garis da Comlurb ficaram no meio de fogo cruzado no Complexo do Chapadão. Na Tijuca, anteontem, o comerciante João José da Silva, 80, morreu por bala perdida na Chácara do Céu.



