Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, que confessou ter se passado por uma menina de 12 anos e vivido como filha adotiva em Joinville, Santa Catarina, também fez vítimas em pelo menos cinco outros estados, conforme a Polícia Civil. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva na quarta-feira (3).
Em Nova Iguaçu (RJ), onde chegou a ser detida anteriormente, ela conseguiu enganar a coordenadora de um projeto social, Viviane Henriques. Na ocasião, apresentou-se como Maria Eduarda e pediu informações sobre a instituição. "Mobilizamos amigos, alugamos uma casa e cuidávamos dela. Ela parecia ser uma adolescente obesa, com autismo. Falava como criança", detalhou Viviane.
Abordagem e relato falso
Amanda procurou Viviane por mensagem em uma rede social, dizendo precisar de ajuda. "Ela disse: 'eu sou do Ceará, mas eu era abusada pelo meu pai. Meu pai me colocou numa casa de prostituição e eu consegui fugir com um caminhoneiro e estou aqui no Rio precisando de ajuda'", relatou a coordenadora. "Ela pesquisava como se comportar como autista, pesquisava como fazer desenho que indicava abuso sexual", acrescentou.
O relato é semelhante às denúncias apresentadas pela família que acolheu Amanda nos últimos meses em Joinville, segundo a Polícia Civil de Santa Catarina. Conforme o delegado Rodrigo Bueno Gusso, a mulher chegou até o casal após procurar uma igreja e relatar ao pastor ter fugido do Pará por sofrer maus-tratos.
Disfarce sustentado com falsas condições clínicas
Para sustentar o disfarce de adolescente e justificar a aparência adulta, Amanda alegava falsamente ter autismo e outras condições clínicas, argumentando que seus traços adultos eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância, quando teria sido abusada em uma casa de prostituição. Acreditando na história, Viviane alugou um imóvel para a suposta menina por um mês e passou a se revezar nos cuidados com outras voluntárias. Com comportamentos infantilizados, elas davam mamadeira e chupeta para 'Duda', como era chamada.
A mulher foi presa em Nova Iguaçu em junho de 2023 suspeita de aplicar golpes, dizendo ser vítima de rede de prostituição e bruxaria. Embora tenha sido apresentada pelas autoridades do Rio de Janeiro como tendo 42 anos na época, Amanda Maria tem 37 anos, segundo a Polícia Civil de Santa Catarina. A divergência de idade não foi esclarecida.
Acolhimento em Joinville
Segundo o delegado Rodrigo Bueno Gusso, Amanda conviveu com a família de Joinville por 14 meses. Ela se apresentava como Gabriele. O advogado Rafael Luiz Siewert, defensor dativo da suspeita, confirmou que Amanda passará por exames de sanidade mental. A ata da audiência de custódia mostra que a investigada se aproximou da família por intermédio de um pastor da Igreja. Inicialmente, declarou ter 18 anos, experiência em panificação e disse que buscava oportunidade de emprego.
Com o tempo, passou a relatar problemas de saúde e dificuldades financeiras, motivando o casal a acolhê-la temporariamente. Após conquistar a confiança, alterou sua versão, afirmando ter apenas 11 anos e alegando ter sido vítima de abusos. Sensibilizados, os pais permitiram que ela morasse com eles e chegaram a organizar uma festa de 12 anos para a suposta menina comemorar o aniversário.
O que diz a defesa
O defensor dativo Rafael Luiz Siewert declarou: "Fui nomeado defensor dativo da investigada, uma vez que a Defensoria Pública não atua perante o Juízo de Garantias da Comarca de Joinville. Após a análise dos autos e entrevista com a custodiada, a defesa identificou elementos que justificaram o pedido de realização de exame de sanidade mental. O requerimento foi acolhido pelo Juízo, que determinou a realização de perícia oficial para avaliação de sua condição psíquica. Neste momento, a investigada permanece à disposição da Justiça em razão da decisão que converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva e da necessidade de realização do exame pericial já determinado. A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis."



