Congresso da ASCO 2026 apresenta avanço histórico
Na sessão plenária do congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2026, os resultados do daraxonrasib emocionaram oncologistas. O primeiro inibidor de RAS a chegar a um estudo de fase 3 no câncer de pâncreas foi publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine. A sobrevida global mediana passou de 6,7 meses com quimioterapia para 13,2 meses com o medicamento oral, representando uma redução de 60% no risco de morte. Cerca de 90% dos tumores de pâncreas são movidos por mutações no gene RAS.
O daraxonrasib segue investigacional: não tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nem aprovação da Food and Drug Administration (FDA). A agência americana autorizou, em abril, um programa de acesso expandido para pacientes elegíveis nos Estados Unidos. A aprovação definitiva é considerada possível ainda em 2026.
Elizabeth Paes: a esperança de chegar ao novo tratamento
Elizabeth Paes Gomes, de 74 anos, aguarda essa aprovação. Diagnosticada com câncer de pâncreas em 2024, após meses de sintomas desconsiderados, ela agora lida com uma metástase no pulmão. “Minha maior esperança é me segurar até esse remédio chegar. Que a Anvisa e o FDA aprovem logo, e que ele seja liberado para todo mundo, pelo SUS inclusive”, afirma a aposentada.
A história de Elizabeth ilustra a dificuldade do diagnóstico precoce. Ela sentia dores abdominais desde 2023, atribuídas a gastrite ou nervosismo. Quando a pele amarelou e a urina escureceu, uma tomografia revelou o tumor. Foi operada em três dias.
O pâncreas: um órgão que se esconde
O pâncreas ocupa uma posição privilegiada para passar despercebido. Fica entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais vasos do abdome. “Essa vizinhança, que deveria funcionar como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal”, explica Marcos Belotto, cirurgião do Hospital Nove de Julho.
Menos de 30% dos pacientes chegam à cirurgia, único tratamento potencialmente curativo. Quando o tumor é encontrado antes de se espalhar, a sobrevida em cinco anos chega a 44%. Com metástase, cai para 3%. A distância entre esses números é o maior desafio da oncologia pancreática.
Sintomas inespecíficos e o diagnóstico tardio
Cerca de 80% dos pacientes têm dor abdominal; 85% perdem peso; entre 50% e 60% relatam falta de apetite e cansaço. “O problema não está na intensidade desses sintomas, e sim na inespecificidade deles”, afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas. “Dor abdominal, cansaço e perda de apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis.”
A icterícia costuma ser o sinal definitivo. Quando o tumor comprime a via biliar, a bile deixa de passar e transborda para a circulação. A pele e os olhos amarelam, a urina fica escura como refrigerante de cola, e as fezes tornam-se esbranquiçadas. “Urina escura acompanhada de fezes esbranquiçadas indica obstrução da via biliar. Não é sinônimo de câncer de pâncreas, mas é motivo para investigar sem demora”, reforça Stefani.
Por que não há rastreamento populacional?
Se encontrar o tumor cedo multiplica por catorze a chance de sobreviver cinco anos, por que não há um exame de rotina? Stefani explica: “Ele precisa ser simples de aplicar em larga escala, não pode acusar alterações irrelevantes e, acima de tudo, precisa mudar o destino de quem ele encontra. Nenhum exame de pâncreas chegou perto disso.” A ressonância magnética, quando aplicada a assintomáticos, geraria milhares de falsos positivos e biópsias desnecessárias.
Sem rastreamento, o que sobra é reduzir risco: não fumar, evitar bebida alcoólica, manter atividade física e alimentação saudável. Cada item corta uma fração da probabilidade, mas nenhum a elimina.
Quem deve entrar em vigilância?
Para a população geral, o risco de desenvolver câncer de pâncreas ao longo da vida é de 1% a 1,5%. Com dois parentes de primeiro grau afetados, o risco sobe para 7% a 8%; com três ou mais, chega a 20%. Em síndromes genéticas como a de Peutz-Jeghers, até um terço dos portadores desenvolverá o tumor. Para esses pacientes, recomenda-se acompanhamento anual por imagem e teste genético.
“A idade em que esse parente adoeceu muda a leitura”, pondera Belotto. “Um caso aos 70 anos pode ser esporádico. Um caso aos 40 aumenta bastante a probabilidade de haver uma mutação por trás.”
O tratamento avançou; o diagnóstico, não
O contraste é nítido. Enquanto o rastreamento segue estagnado, a terapia se moveu. “Até pouco tempo atrás, o horizonte oferecido a esses pacientes era de 12 a 18 meses. Depois de décadas sem nenhuma novidade relevante, o câncer de pâncreas voltou a ter perspectiva. O que se persegue agora é transformá-lo numa doença crônica”, afirma Belotto.
Elizabeth Paes mantém a rotina: caminha na praia, faz pilates, toma café com amigas, vai ao teatro e ao cinema. “Sempre fui muito positiva, e decidi que essa positividade ia trabalhar a meu favor. Que eu vou ficar bem e vou superar tudo isso.”



