Mercurocromo: por que o antisséptico vermelho sumiu das farmácias
Mercurocromo: o fim do antisséptico vermelho há 25 anos

Há 25 anos, o mercurocromo — o antisséptico vermelho que marcou a infância de gerações de brasileiros — desapareceu das prateleiras das farmácias. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua produção e venda por conter mercúrio na fórmula, um metal altamente tóxico. Embora o risco direto ao paciente fosse baixo, a medida visava reduzir a exposição cumulativa da população e do meio ambiente ao metal.

O químico Adriano Andricopulo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências, explica que o princípio ativo do mercurocromo era a merbromina, um composto organomercurial. "Portanto, ele realmente continha mercúrio, mas não na forma de mercúrio metálico solto, como nos antigos termômetros. O mercúrio fazia parte da própria estrutura química da molécula."

A decisão da Anvisa, segundo Andricopulo, fazia parte de uma política de redução da exposição ao mercúrio. "A preocupação era especialmente importante quando o produto era aplicado repetidamente ou sobre áreas extensas de pele lesionada, situação em que poderia haver maior absorção." Ele ressalta, contudo, que quem usou mercúrio em um machucado não precisa se preocupar, já que o contato por si só não significa exposição à intoxicação.

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O que era o mercurocromo?

O mercurocromo foi desenvolvido nos Estados Unidos em 1919 pelo cirurgião Hugh Hampton Young, da Universidade Johns Hopkins. A solução era uma diluição de 2% de merbromina em 98% de álcool (daí o ardor) ou água. "É importante lembrar que isso ocorreu antes da descoberta da penicilina [em 1928] e muito antes dos antibióticos modernos. Naquela época, prevenir infecções em pequenos ferimentos era um enorme desafio, e a merbromina representou uma inovação importante", contextualiza Andricopulo.

O produto se tornou onipresente nos lares brasileiros, sendo a primeira opção para pequenas escoriações. No entanto, a partir dos anos 1990, seu uso passou a ser questionado. A própria medicina começou a entender que havia soluções mais eficientes, como água e sabão.

Por que água e sabão venceram?

Em artigo de 2011, o médico Drauzio Varella relembra sua avó, que seguia o ditado "o que arde cura", e comenta que, apesar de carinhosas, as avós não entendiam de bacteriologia. Ele explica que as bactérias mais agressivas podiam crescer dentro do vidro da solução de mercúrio, e a pazinha plástica podia contaminar o frasco. "A conduta atual diante de esfolamentos, arranhões, cortes superficiais ou profundos pode ser resumida em duas palavras: água e sabão! E mais nada", escreveu Varella.

O pediatra infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Pediatria, reforça: "Água e sabão se mostraram muitas vezes tão efetivos quanto esses antissépticos locais. Percebemos que não faz muito sentido usar nenhuma substância porque existem potenciais de irritação."

A pediatra Giulia Lima, pesquisadora no Boston Children's Hospital, acrescenta que nunca foi comprovado que o mercurocromo prevenia infecções. Além disso, a tintura vermelha dificultava a inspeção visual do machucado. Andricopulo complementa que antissépticos fortes podem lesar células importantes para a cicatrização, retardando o reparo da pele. "A medicina evoluiu de uma abordagem centrada em desinfetar para uma abordagem baseada em limpar adequadamente a ferida e preservar o processo natural de cicatrização", compara.

Proibição global e riscos ambientais

Em 1998, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA reclassificou o mercurocromo como não seguro, e o produto foi banido das farmácias americanas. Outros países seguiram o mesmo caminho. "A proibição no Brasil seguiu determinações da Organização Mundial da Saúde", afirma a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira, professora de farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A OMS entendia o problema como coletivo: proteger o indivíduo da toxicidade direta e o ambiente do acúmulo de mercúrio na cadeia alimentar.

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Os riscos de intoxicação individual eram baixos, a menos que uma criança ingerisse acidentalmente o conteúdo de um frasco. No entanto, o potencial cumulativo do mercúrio no meio ambiente levou à decisão. "Descartes de remédios com mercúrio podiam contaminar terra, água e outros animais, aumentando a concentração do mercúrio no ambiente, que poderia retornar ao ser humano em forma de alimento", explica Lima. "Não fazia sentido manter."

Alternativas contemporâneas

Hoje, existem alternativas ao mercurocromo, como sprays antissépticos que evitam contaminação cruzada. A marca Merthiolate, que também continha mercúrio (timerosal), foi reformulada e agora usa clorexidina, um antisséptico sintético. "Os antissépticos à base de mercúrio foram descontinuados e a clorexidina veio como alternativa mais segura, menos poluente ao meio ambiente e menos irritante ao paciente", analisa Kfouri.

Para ralados e machucados comuns, porém, a recomendação é unânime: apenas água e sabão. "E qualquer sabão serve. Não precisa ser antibacteriano nem nada especial. Isso não faz diferença", garante Lima. O farmacêutico Fabio Leonardo Mora, do projeto Farmacêutico das Antigas, comenta que, com a proibição, ficou na memória "o carinho e o assopro dos pais para aliviar o ardido".