As características biológicas e décadas de dados mostram que o hantavírus não tem potencial para causar uma propagação global nos mesmos moldes do coronavírus, segundo especialistas ouvidos pela Folha.
Até agora, testes de ao menos sete passageiros do cruzeiro MV Hondius deram positivo para hantavírus, além das três mortes. As confirmações trazem à memória coletiva global os impactos da pandemia de Covid-19. No entanto, especialistas e estudos científicos sólidos sobre o vírus indicam que, embora a letalidade seja preocupante para infectados, o evento deve se encerrar por aí.
Mariangela Ribeiro Resende, professora-titular de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, explica que esses vírus são estudados há muito tempo, e suas características amplamente conhecidas pelos cientistas. Ela vê o caso do navio como uma amostra da limitação do patógeno. 'Descrito há muito tempo, os tipos de hantavírus ficam mais restritos a zonas rurais e periurbanas, onde há contato com roedores silvestres que o disseminam através da saliva, urina ou fezes. Quando no organismo humano, ele não consegue avançar porque depende do roedor. Se o vírus fosse altamente transmissível, é muito provável que a quantidade de infecções no navio seria maior, dadas as condições de confinamento do ambiente', afirma.
Segundo Resende, os hantavírus e os coronavírus têm características completamente diferentes. A principal delas reside justamente na capacidade de contágio. Os coronavírus são altamente adaptados para saltar de pessoa para pessoa através do ar, enquanto o hantavírus encontra no ser humano um hospedeiro acidental, e na maioria das vezes um ponto final.
Um estudo publicado em abril de 2010 na revista Clinical Microbiology Reviews, da Sociedade Americana de Microbiologia, reforça a conclusão. O trabalho, que tem como autor o professor Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, da USP Ribeirão Preto, mapeou a ecologia e os mecanismos de transmissão das diversas cepas de hantavírus ao redor do mundo, e concluiu que o contágio humano ocorre quase exclusivamente pela inalação de aerossóis das excretas dos roedores. Mesmo na cepa Andes, o contágio costuma se restringir a contatos domiciliares ou sexuais, não gerando cadeias de transmissão em massa.
Já uma publicação de 2024 da revista de saúde pública BMC Public Health revisou quatro décadas de dados e concluiu que se a espécie específica de roedor não estiver presente em uma região, o ciclo do vírus se interrompe. A investigação também mostra percentuais baixos de soroprevalência de hantavírus no mundo (2,93%) e em profissionais de saúde das Américas (0,54%), onde reside a cepa Andes. Ambos os estudos são usados como referência pela OMS, que classifica como baixo o risco global, descartando a necessidade de um comitê de crise.



